Prólogo

Se você acompanha Dragon Ball Super, sabe que existe uma polarização gigantesca em relação aos debates sobre a série na internet. E o Tanaka, no Tanaka Awards 2016, se posicionou nessa discussão ao colocar DBS como o pior anime do ano passado. Mas eu, como autor do texto da premiação, não me senti muito satisfeito com o resultado da minha produção.

O ingrato sentimento que tenho com Dragon Ball Super desde que o arco do Bills começou é o de que a série é uma colcha de retalhos tão grande que é muito difícil se manter consciente de todos os deslizes dela. E assim como explicitei no Awards, é ainda mais difícil falar sobre esses problemas. Até tentei fazer um texto mais focado em poucos episódios, para dissecar melhor os problemas que vejo, mas ainda não funcionou como desejado. Então aqui estou para outra tentativa de sumarizar os problemas que encontro em DBS, mas agora falando sobre um acontecimento específico da continuação da história de Akira Toriyama.

Mas antes de começar, sabendo da grande polarização ante à série, um aviso: peço que, se veio ler o texto de má vontade, não leia, não comente. O intuito do artigo é gerar discussão produtiva. Se não for para ler o texto na íntegra, de ponta a ponta, vá embora. Depois disso, fique à vontade para manifestar a sua opinião da forma que desejar. E garanto que, quanto melhor argumentar, mais darei atenção ao que falar 🙂

A discussão: transformação da Caulifla vs. transformação de Goten e Trunks

Nas últimas semanas, um dos assuntos mais comentados sobre Dragon Ball Super concerne ao núcleo de Saiyajins do Universo 6, universo gêmeo do Universo 7, que é onde nossos heróis viveram as histórias que acompanhamos anteriormente. E uma das críticas mais comentadas a esse núcleo é a de que a transformação em Super Saiyajin da personagem Caulifla foi muito fácil e que banaliza a transformação lendária. E como contra-crítica, há o argumento de que a transformação de Goten e Trunks em Super Saiyajin também é forçada e ninguém fala nada sobre.

As duas situações mencionadas são muito diferentes tanto a nível de conteúdo quanto a nível de storytelling. O que, acredito, torna a contra-crítica uma falsa analogia. Mas mesmo que esse argumento não caísse nessa falácia, cairia em outra, a do tu quoque (em tradução literal, ‘você mesmo’), que consiste em apontar um outro erro passado para justificar o atual. E, bem, o fato de Dragon Ball ter cometido algum erro nas obras originais não faria com que, magicamente, os erros de Dragon Ball Super desaparecessem.

Um erro não justifica o outro, mas… será que esses erros são comparáveis?

A transformação de Trunks e Goten – Erros e acertos

Bem, sim, eu também acho que os garotos se transformarem em Super Saiyajin banaliza a “forma lendária” e que é um problema para o enredo. Mas para mim é claro que esse problema é em várias ordens de grandeza menor do que o problema que gera a transformação da Saiyajin gangster do Universo 6.

O problema com a transformação de Goten e Trunks se resume ao fato de eles fazerem com que todos com sangue saiyajin que eram personagens constantes em Dragon Ball pudessem se transformar, fazendo assim a transformação se tornar, de uma vez por todas, terreno comum.

A transformação em SSJ já vinha sendo banalizada desde o Trunks do futuro, já que foi com ele que ela deixou de ser única. Claro que era a única saída para o Toriyama, já que ele tinha que continuar a história e não podia contar só a história do Goku sendo inalcançavelmente superior aos outros personagens. Mas se por um lado era uma saída, por outro virou um defeito.

E nem digo que o Trunks do futuro se transformar é narrativamente absurdo, porque ele era um ser realmente alienígena à história. Ele se transformar ali era um enorme alerta de mistério para o futuro (como foi) mais do que era uma “resolução fácil”. O problema nessa situação foi unicamente tirar o status de “único” da até então lenda. Depois, com o Ultra SSJ e com o SSJ2, banalizou um pouco mais.

A transformação do Trunks e do Goten dá o golpe final no status de lenda, mas basicamente é isso. Naquele momento da história esse impacto negativo ainda é suavizado pelo fato da transformação já ser um pouco mais comum de se ver. Por outro lado, a descoberta do potencial Saiyajin dos dois garotos tem muitos pontos positivos, principalmente a nível de condução, mas não só.

SURPRISE, MOTHERFUCKER!!

Nas cenas que vemos os dois alcançando a forma lendária, por exemplo, vemos, do nada, eles já dominando aquele estágio e logo nos surpreendemos junto com os personagens mais velhos com a revelação. Isso inclusive cria conexão emocional com a cena e a torna mais crível, já que, despertado o sentimento de surpresa, o espectador é convidado a buscar uma resposta.

E a série nos dá várias respostas: podemos partir do ponto de vista biológico e genético, já que os pais já tinham se transformado quando os conceberam. Podemos partir do ponto de vista psicológico, já que quando você cresce e vive diariamente com uma meta visível, tem mais chance de alcançar aquela meta. Isso inclusive é um fator muito presente em esportes e nas artes marciais, por exemplo, e que faz com que vejamos os recordes de antigamente serem quebrados hoje com tanta facilidade. E podemos, por fim, partir do que a série nos diz, mostra e passa todos os seus arcos reafirmando: os híbridos de Saiyajin com humanos têm um maior poder. Inclusive isso é muito coerente com a parte da temática da fase Z de Dragon Ball, mostrando mais uma vez que cada geração nasce mais forte.

Os dois primeiros pontos que citei não são explicitamente mencionados na série, mas é como eu disse: a condução da cena nos faz querer buscar uma resposta. E mesmo se desconsiderarmos esses pontos, temos ainda um dos elementos mais chaves de Dragon Ball Z, que é o do potencial dos híbridos. Então podemos ver que, por mais que as crianças Super Saiyajin firam Dragon Ball em algum nível, há um esforço por parte da história de te convencer de que eles tinham plena capacidade para tal. E, assim, o problema que gera nem é tão danoso assim.

Mas e quanto à transformação da Caulifla?

Sinceramente, não vejo nada que se salva no caso da Saiyajin mais proeminente do Universo 6. Começando pela forma como ela alcança o Super Saiyajin, que é só forçando as costas.

Ignorando por ora a questão do impacto da cena, a decisão por si já não tem coerência interna. Porque se fosse assim fácil, como ela nunca se transformou antes? Até acordando você tensiona as costas, se exercitando você tensiona as costas e, para alguém experiente em batalha como ela, em meio a batalhas você com certeza tem situações muito mais tensas em que a raiva – elemento essencial para a transformação – aflora com muito mais intensidade, fazendo com que você tensione as costas por seja lá qual for o motivo.

Algumas pessoas até tentaram justificar que esse mecanismo faria sentido com a forma como nosso corpo reage à raiva, mas isso só confirma que não faz sentido ninguém naquele universo ter se transformado se era assim tão fácil. E, bem, fica bem claro que para a Caulifla, ou mesmo a Kale, ficar com raiva não se precisa de muito.

E nada do que Goten e Trunks têm como “desculpa” para se transformarem, a Caulifla tem. Não existe registro nenhum de Super Saiyajin no Universo 6, então nem teria alguém para passar esse gene ativo para ela e muito menos é terreno comum a transformação naquele universo inteiro; não existe a questão do gene híbrido: muito pelo contrário, já que se confirma que naquele universo os Saiyajins são tão mais civilizados que a espécie já perdeu a cauda há muito tempo (sendo a cauda um elemento muito forte que representa o espírito guerreiro da raça); e, por fim, não existe um exemplo para a Caulifla seguir, porque o máximo que ela vê é o Kyabe se transformando e, no mesmo episódio, em questão de minutos, ela se transforma também. Muito menos existe qualquer tema dentro da série que justifique isso. A Caulifla é de outro universo, então com certeza não é uma nova geração.

Mas independente de possíveis desculpas e mesmo incoerências envoltos da transformação dessa nova personagem, o que realmente fere e banaliza completamente a transformação Saiyajin é a condução da cena de transformação.

Porque diferente do sentimento de surpresa e dúvida que o storytelling entrega com a surpresa de Goten e Trunks, a história nos põe para ver o treinamento, do começo ao fim, da líder de gangue Saiyajin para se transformar em Super Saiyajin. E é um treinamento completo. Há o exemplo da técnica, a tentativa, a falha e, em seguida, com mais algumas tentativas, o sucesso.

Mas todos esses passos do treinamento, apesar de estarem ali, não duram nenhum tempo de tela e não têm consequência alguma no enredo. E se você mostra um arco assim, é para mostrar o esforço tendo retorno. Mas o esforço é falso, porque nós a vemos “treinar” (ou, mais precisamente, fazendo força para cagar) por meio episódio. A falha é falsa, já que não conseguir se transformar não traz consequência alguma e não é algo sentido como problema pela personagem. E o triunfo também é falso, já que o método para superar, com um esforço falso, a falha falsa, é tensionar as costas. Se esforço, estresse e recompensa não existem em uma situação que existe para mostrá-los, como algo pode deixar um gosto de falso, sem tensão e banalidade maior que isso?

Até se você pegar uma situação mais passível de analogia, que é a cena do Goku aprendendo o Kamehameha, você tem uma narrativa com uma execução infinitamente mais consciente. Porque apesar do conteúdo da cena do Goku e da cena da Caulifla ser semelhante, existe ainda um elemento de risco e de tensão imediata a frente do Goku e não existe um arco de treinamento inteiro para ele. A cena pula direto de ele vendo a técnica para ele se arriscando em tentar e, no fim, conseguindo. O que passa uma mensagem muito mais direta de que o Goku é um prodígio. Não existe um falso arco de treino aqui, e a tensão é muito mais clara e imediata.

E Dragon Ball Super mantém esse problema de não saber como conduzir a cena em, bem, todas as cenas e situações. Seguindo ainda no exemplo da Caulifla, ela mostra, mesmo tendo tido pouco mais de 30 horas – sem sala do templo ou semente dos deuses – para treinar, ela não só domina o Super Saiyajin como também alcança o Ultra Super Saiyajin. E, do momento em que ela mostra o Ultra SSJ para o momento em que o Goku mostra a ela e que essa forma sacrifica velocidade e causa exaustão em lutas longas passam-se exatos 32 segundos. Como alguém conclui algo sobre consequência a longo prazo em uma luta de 5 golpes com meio-minuto de duração? E independente da desculpa pragmática que alguém daria a isso, a cena vai continuar sem tensão, sem consequência, sem timing.

E o mesmo vale para a transformação em Super Saiyajin 2 da mesma personagem em questão. Ela repete o arco de treinamento, só que em meio a um battle royale que vai destruir 7 universos e em uma sequência de mais ou menos 2 minutos em que ela tenta se transformar uma vez, não consegue, o Goku se transforma (supostamente, segundo a cena, ensinando-a) e, então, ela tenta de novo e consegue.

As noções de pacing, passagem de tempo, coerência interna, coerência do universo e até de intenção principal da cena simplesmente parecem não existir em DBS. Por isso não vejo como comparar o quão convincente algo foi no Dragon Ball original com o quão foi aqui, no Super. Acaba sempre por ser uma comparação reducionista e que ignora os problemas técnicos e basicíssimos de storytelling que existem na sequência. Problemas esses que, para mim, definem a falha essencial da sequência de Dragon Ball: mal utilizar as fundações do contar de histórias.

Isso que nem entrei nas questões sobre personagem, sobre montagem, tom e coesão. Mas, como eu disse, é realmente difícil de falar sobre todos os problemas desse anime. Então talvez eu tente resgatar aquele texto sobre alguns episódios em específico. Aguardem!

P.S.: o artigo foi baseado nessa postagem de uma página sobre Dragon Ball da qual faço parte da moderação.