Esse era para ser um review dos capítulos 342 e 343 do mangá, mas como quase nada aconteceu e o plot voltou a focar no grupo do Gatts, achei que seria interessante abordar mais uma das temáticas centrais da série.

Muitos leitores acreditam que após o arco da Era de Ouro, o mangá de Kentaro Miura deixou de ser o que era antigamente e que os personagens ficaram muito mais fracos e bobos e a história menos coesa. Em parte isso até pode ser verdade, mas em geral, o que acontece hoje em Berserk é uma expansão temática do flashback e uma abordagem diferente sobre a abertura emocional do Gatts para com seus amigos.

Não há como negar que algumas coisas que alguns personagens trazem para a atmosfera da série são, efetivamente, ruins. Como o  Puck, por exemplo, que chega a quebrar a quarta parede de um mangá que é sobre conflitos internos dos personagens em um mundo condenado e que precisa de muita imersão. As piadas que o personagem faz também não ajudam em nada nesse aspecto, fazendo referências aleatórias a franquias da cultura pop simplesmente para, como ele mesmo diz, deixar a atmosfera menos obscura. É artificial e quebra essa imersão desejada, simplesmente. O personagem tem seu valor, tem sua função, mas também traz consigo um grande problema.

E, é claro, os problemas não se resumem só ao Puck. Alguns personagens novos, por mais que também se encaixem em uma função temática, são superficiais demais, como o Isidoro, a Schierke e, principalmente, a Ivalera (que serve basicamente para reforçar a parte problemática do Puck). O mangá ainda usa o tom mais leve que adota aos poucos após o Eclipse para às vezes acabar de vez com o peso que constrói em toda a sua mitologia. Só nos últimos capítulos o autor introduziu tecnologias que elevam a escala das batalhas sem qualquer consequência e fez um cliffhanger genérico e não funcional ameaçando matar uma personagem com uma desculpa que simplesmente não tinha como defender. Isso tudo e, também, os arcos extremamente alongados que para pouco servem são defeitos gritantes.

Por outro lado, todos esses mesmos elementos que têm suas falhas trazem inúmeras qualidades ao novo rumo de Berserk. O Puck serve como uma conexão -quase- espiritual do Gatts com outras pessoas, assim tornando possível que novas relações apareçam com o homem traumatizado pelo Eclipse. A Schierke é como uma filha para o Espadachim Negro, que antes de ser protegida por ele, o protege e trata com carinho. O Isidoro vem mostrar ao personagem que ele é digno de admiração e digno de ser seguido. A Farnese mostra que o caminho que ele segue pode mudar as pessoas e ainda o acalma ao tomar conta da Caska, coisa que ele mesmo não conseguia fazer e quase se matava tentando. E o Serpico é o companheiro confiável, que por mais que não se ligue muito emocionalmente ao resto do grupo, é forte a ponto de enfrentar o ex-comandante de ataque do Bando do Falcão só com um pensamento ágil e sagacidade.

Mas esse novo grupo protagonista não tem só uma vertente pragmática, porque nele alguns personagens bons se destacam. A Farnese principalmente, passando por toda uma descoberta pessoal do porquê trabalhava como trabalhava, de como a vida mimada dela a tornou fraca e mudando essas atitudes ao se juntar ao Gatts e companhia. O Serpico acompanhando a Farnese também se mostra como um ótimo personagem, tentando equilibrar sua obsessão pela garota nobre em conjunto com o desejo dela de fazer parte de um grupo onde ela não tem privilégios e corre muito perigo. E a construção de ambos é bem poderosa, com alguns momentos especialmente conflituosos, como a luta do Serpico contra o Gatts no precipício e a possessão da Farnese. Mesmo o Isidoro, que como eu disse não é dos melhores, tem um bom conflito inicial, sendo mostrado como um órfão que a guerra deixou para trás, mas que sempre se agarra à personalidade extrovertida e à inocência infantil.

E assim como esses personagens que trouxeram uma atmosfera mais leve para a série têm camadas, a própria atmosfera também tem. O mundo ganha a fantasia, dragões e todo tipo de criatura, mas também se corrompe. Os demônios passam a estar em todos os lugares, tematicamente manchando até o que é comumente tratado como bom e sagrado e tornando-o vil. As criaturas que aparecem também não são nada amigáveis, são na verdade seres dominados por instintos sexuais e violentos primitivíssimos, o que gera cenas muito pesadas e uma sensação de perigo constante que nem na Era de Ouro se tinha. E esse mundo pós-Eclipse cai nas costas do Gatts. O personagem é caçado o tempo todo e em todo lugar por demônios (matando pessoas ao seu redor só por estar ali presente), carrega a vida de seus amigos no seu sentimento de vingança e no meio do caminho ainda tem que proteger a Caska e recebe um artefato, a armadura Berserk, que destrói seu corpo.

Isso coloca o Espadachim Negro em uma posição de solidão maior do que a que estava antes de encontrar o Bando do Falcão. E é aí onde todas as características dos novos amigos dele trabalham, fazendo-o se abrir mesmo em um mundo perdido. Por isso que com o tempo a atmosfera vai ficando mais leve, porque os amigos que ele perdeu, diferente do que se imaginava logo após a chacina do Bando do Falcão, não foram o fim de sua vida e o peso que ele carrega foi sendo distribuído para mais ombros que conquistaram sua confiança e decidiram carregar o seu destino juntos. E é com isso que Berserk vai ficando menos obscuro.

A temática da abertura emocional do Gatts é repetida aqui, só que adicionando o peso da primeira vez na qual ele se abriu com um grupo. Enquanto na Era de Ouro o Gatts era solitário pelo que tinham feito a ele e pela falta de confiança dele nos outros, se abrindo com quem passou a o tratar com respeito e se pondo em risco o tempo todo por aquelas pessoas, no pós-Eclipse o Espadachim Negro é solitário pelo que tinham feito aos amigos dele, fazendo-o se abrir para uma relação mútua de proteção. Nesse ponto o Gatts mais depende dos amigos dele do que o contrário, devido ao quanto ele se sacrificou pelos outros ao longo do mangá.

É interessante perceber como o papel do Gatts naturalmente, nos quadros, deixa de ser de ponta de lança para ser uma onde ele guarda as costas dos companheiros.

Também dentro desse aspecto, o posicionamento da trama sobre o assunto explora alguns mistérios da personalidade do Griffith, do Femto e do Falcão Branco. O líder do Bando do Falcão sempre se mostrou muito em dúvida sobre seus companheiros, porque por mais que bravejasse ser decidido quanto à amizade, quebrou no primeiro momento em que um amigo o deixou. Ainda no Eclipse, quando ele estava completamente fragilizado, com seu sonho destruído e se sentindo abandonado tanto pelo Gatts quanto pela Caska, sacrificou todos, mas há poucos capítulos o personagem tentou uma aproximação com o Rickert. Além dessa parte da personalidade do “Messias” do mundo de Berserk o colocar como alguém que parece não se entender e que passa por muitos conflitos internos, também complementa a tão citada dualidade Gatts x Griffith. Enquanto Gatts é introspectivo mas cultiva amizades que escolhem carregar um peso imenso nas costas juntos do personagem, o Griffith é um Deus em Falconia e está longe de todo mundo que um dia considerou amigo. A transição do capítulo 341 para o 342 me lembrou disso, por isso trouxe o tema. Enquanto Rickert se afasta do Falcão e de Falconia, o Espadachim Negro chega com seu grupo em um novo lugar.

De resto, não tenho nada para comentar dos últimos dois capítulos. Só espero que o Miura volte a escrever logo e que ande mais com a trama. Afinal de contas, por mais que eu tenha defendido o conjunto atual de personagens e a atmosfera mais branda, os últimos quatro capítulos pecaram bastante. Mas isso é algo a se comentar se a série continuar assim, porque, por ora, o sabor de ler o mangá de Miura ainda é delicioso.