Um dos animes mais aguardado desta temporada deu as caras. Será que o atual queridinho da Weekly Shonen Jump fez bonito em sua estréia? Vamos descobrir.

The day has come

Antes de tudo, se há uma palavra a qual podemos usar para resumir perfeitamente Boku no Hero Academia, essa é “simplicidade”. O roteiro é simples e não foge muito dos clichês e tropes já estabelecidos há muito tempo na mídia, se comparado com outras obras, mas, em um geral, o trabalho é realizado com extrema competência e sem pretensiosismo. Podemos dizer que Boku no Hero Academia faz o básico “feijão com arroz” de um “Shonen de batalha” e entrega o que promete.

O protagonista, Izuku Midoriya, é a perfeita demonstração de como Boku no Hero se assume nesta simplicidade. Um jovem com características básicas que já vimos em tantos outros protagonistas de mangás e que vive em prol de seu sonho de infância que é se tornar um herói e mesmo convivendo com o fato de que não tem super-poderes, não desiste de sua determinação. Uma abordagem simples das bases que constrói o protagonista e que move a história.

A contra-parte de Midoriya, seu “amigo” de infância Katsuki Bakugou, também não foge do básico ao fazer o tipico personagem que faz contra-ponto ao protagonista em todos os aspectos, seja aparência, personalidade, talento ou mesmo o fato de ter super-poderes. E também serve de sombra para que o personagem principal cresça e se desenvolva.

Uma amalgama de clichês que criam uma autoconsciência na série de simplicidade e infantilidade e que acaba denotando essa abordagem em todos os outros fatores além dos personagens e cria uma unidade própria charmosa, como por exemplo no character design, na colorização, no estilo, na forma e principalmente na direção, a qual foi o principal destaque deste primeiro episódio.

Kenji Nagasaki demonstrou um ótimo inicio de trabalho na direção de Boku no Hero Academia. Seu estilo voltado a simplicidade casou com a proposta da série e emulou muitos aspectos, aqui mais refinados, de seu trabalho em Gundam Build Fighters, seu primeiro trabalho como diretor o qual usa da mesma abordagem simplista de Boku no Hero na forma de contar uma história.

Uma direção impecável com algumas jogadas simbólicas de enquadramentos e que em alguns casos ajudam a complementar aspectos da trama, como os heróis sempre aparecerem em uma posição de destaque na tela, Bakugou ser representado sempre de um angulo superior, todos fazendo um contra-ponto com Midoriya que na maior parte do tempo é representado abaixo e demonstrando inferioridade.

Um jogo interessante de câmera que representa bem esse aspecto da direção do Kenji é em uma cena em que Midoriya encontra-se com seu herói e fonte de inspiração, All Might. Na cena vemos claramente uma divisão entre os dois causa por um elemento do cenário que representa a diferença de patamar do All Might para o protagonista que estava vivendo o ápice de seu conflito sobre se tornar um herói mesmo sem poderes. A presença do ídolo na frente  se reflete como algo inalcançável. Na cena seguinte quando Midoriya, disposto de coragem, enfrenta seu conflito ao perguntar sem medo ao All Might se ele poderá se tornar um herói. Na tomada vemos Kenji botando os dois num plano igual que quebra a barreira transposta anteriormente. E em seguida temo um plano de toda a cidade mostrando a superação de Midoriya e que naquele instante ele havia superado seu conflito.

Cenas bem simbólicas que representam puramente o conflito vivido pelo protagonista em seus dois extremos negativo e positivo. Outro elemento que demonstra essa dicotomia do sonho de Midoriya é seu caderno em que ele escreve sobre todos os heróis, objeto que reflete perfeitamente seu sonho. Na cena em que Bakugou o explode podemos ver o protagonista afundando na sua motivação e seguida após os acontecimentos que revivem a vontade de seu sonho, temos seu maior simbolo de força e motivação “revivendo” seu caderno com um autografo.

Além de toda a utilização da luz do cenário ou ambiente em algumas cenas que reforçam essa transição entre otimismo e pessimismo no conflito do Midoriya, e que referencia o All Might como um simbolo de luz na vida do jovem.

Na cena em que o protagonista é pego pelo vilão num túnel escuro temos o clímax deste contraste do uso da iluminação com Midoriya perecendo na escuridão por não ter poderes enquanto All Might surge lhe trazendo a luz novamente.

E além de toda a competência técnica na parte dramática, temos uma boa utilização de comédia intercalando com estes momentos para tirar um pouco o peso dramático e trazendo o clima leve da simplicidade de Boku no Hero.

A parte de ação, do pouco mostrado, foi decente e manteve um ótimo nível da direção em geral no saldo final do episódio. Destaque também para a trilha sonora e toda a mixagem de som que foram muito boas e mantiveram uma excelente competência técnica, agregando valor a toda parte visual.

Boku no Hero esteve longe de decepcionar. Um primeiro episódio muito bem conduzido e com uma mão certeira na direção que soube se utilizar da simplicidade da obra como fio o condutor da forma em que o mangá seria transposto para anime, criando uma adaptação redondinha. Kenji Nagasaki mostrou que com pouco é possível fazer muito e que Boku no Hero está nas mãos certas. Certamente uma das melhores estreias da Temporada de Primavera de 2016.