Escrito por Diego Gonçalves do site “É Só Um Desenho” 

Já nos dizia Aristóteles: “o homem é um animal social”. Como tal, talvez um dos maiores medos que uma pessoa possa ter seja o medo da solidão. Não a solidão que se sente ao se ficar sozinho em seu quarto, mas um tipo mais profundo (e perigoso) de solidão. A solidão que se sente em meio à multidão. Estar cercado de pessoas e, ainda assim, sentir-se completamente a parte delas. Ou pior: sentir-se indesejado por elas. Existe um motivo para punições como o ostracismo ou o exílio terem sido frequentemente uma espécie de “último recurso”, mais ameno apenas do que a morte. Sentir-se apartado de uma comunidade, indesejado por aqueles que a pessoa considera seus semelhantes, é um impacto bem forte em uma espécie tão dependente de laços e relações sociais. Não é a toa que grandes poetas usaram do exílio como tema para escrever as mais famosas obras.

Koe no Katachi”, ou “A Voz Silenciosa”, em certo sentido trabalha exatamente com esta temática. Mangá escrito e ilustrado por Yoshitoki Oima, e serializado na revista Weekly Shounen Magazine entre 2013 e 2014, a história começa quando Nishimiya, uma menina surda, é transferida para a escola de Ishida. Naturalmente “arteiro”, não leva-se nem meia página para que o garoto comece a implicar com a nova aluna. Incialmente, são brincadeira que, ainda que de mal gosto, talvez pudéssemos descartar como “inocentes”. Mas a coisa piora progressivamente. E não apenas da parte de Ishida: não tarda até que toda a classe esteja participando no bullying contra Nishimiya. Ofensas horríveis são escritas para ela na lousa da sala. Seu aparelho auditivo é constantemente roubado e destruído. Fora uma série de outros problemas. A situação se torna tão crítica que o diretor da escola decide falar com os alunos da sala, a fim de descobrir o responsável por isso. Neste momento, todos, inclusive o professor, apontam para Ishida, que sozinho leva a culpa por tudo. Mas não é apenas isso. Deste momento em diante, o próprio Ishida se torna a nova vítima de bullying. Ao que parece, toda a sala repentina e convenientemente esqueceu o que eles próprios haviam feito, decidindo responsabilizar Ishida por tudo e o maltratando como uma forma de “punição ao bullying”. Quando Nishimiya muda de escola, então, a situação só piora para Ishida.

Durante os próximos anos, o jovem seria constantemente assediado. Isolado dos demais, mesmo quando tenta pedir ajuda ao professor este lhe diz que foi ele quem trouxe aquela desgraça para si mesmo e que um bullying não tinha o direito de reclamar de estar sofrendo o mesmo que causou. Quando entra no ensino médio, Ishida já está completamente isolado. Mesmo a mudança de escola não altera este traço em sua pessoa, e até seu último ano ele se mantém afastado de todos. Ao final, ele toma uma decisão: ele procuraria Nishimiya para se desculpar. E, logo após isso, iria se matar… E ai você percebe que ainda faltam seis volumes de mangá pra história acabar. Vamos lá, é meio óbvio que ele não irá se matar. Também é óbvio de se imaginar que do encontro entre os dois nascerá um romance que se desenvolverá ao longo da história. Estruturalmente, é a sua típica história que se resume na busca da redenção. Temos um protagonista que no passado fez algo extremamente cruel, e que agora procura alguma forma de compensar por isso. Nada de novo na estrutura, mas hey, não precisa ser novo. Este é o tipo de história na qual o final já está dado do início, onde o que realmente importa é como a história chegará lá. E sinceramente, é uma jornada muito gostosa de se acompanhar.

Quando vi a sinopse e a proposta desse mangá, eu sinceramente imaginava algo extremamente depressivo. E, bom, no começo de fato é. Como eu já estou relativamente acostumado com a fórmula “por favor, tenha pena desses personagens, sim?” eu não posso dizer que me senti lá muito afetado por aquele começo, mas alguém um pouco mais emotivo possivelmente ficará com vontade de entrar no mangá e dar um murro na cara de absolutamente todo personagem naquela escola (rs). Mas conforme a história avança, o tom vai lentamente mudando. Inicialmente, é uma história patética, no sentido original latino na palavra. “Patético” vem de “despertar o pathos”, a raiva, a angustia. Na antiguidade clássica, era comum o uso de “argumentos patéticos”, argumentos voltados para despertar as emoções humanas, apelando para a indignação dos ouvintes, que é exatamente o que este começo do mangá faz. Mas conforme a história vai avançando, a busca por redenção vai dando um tom mais leve e inocente à história. Isso não significa que deixam de existir momentos em que as ações de certos personagens causarão intensa raiva ou indignação, mas estes momentos vão se tornando progressivamente mais escassos e localizados, cedendo lugar a momentos de interação mais amena entre os personagens.

Vamos lá, quando Ishida finalmente se reencontra com Nishimiya para se desculpar, ele acidentalmente se deixa levar pela emoção do momento e diz que gostaria de ser amigo dela. Quando estão para se despedir, ela sinaliza, em linguagem de sinais, que gostaria de vê-lo novamente. Neste momento, Ishida desiste de suas ideias suicidas, decidindo que, em vez disso, dedicaria sua vida para ajudar Nishimiya, procurando compensar pelo tormento que causara no passado. A partir deste encontro, Ishida irá lentamente começar a se abrir para as pessoas, fazendo novas amizades e reatando amizades antigas. E aqui eu entro no que eu considero um dos pontos mais interessantes no mangá. Vejam bem, conforme a história avança, Ishida, que havia se fechado para o mundo, decide que ele deve começar a ouvir a voz das pessoas, pouco importa o que elas teriam a dizer. Falando assim parece algo fácil de ser feito, não? É só escutar, afinal… Bem, não. Deixem-me perguntar: por que a Nishimiya sofria bullying? Por que ela era surda, sim, é verdade. Mas por que isso seria algo ruim? Ou, ainda, por que, dentre todas as possíveis deficiências que uma pessoa pode ter, o autor decidiu escolher logo a surdez como aquela a mover a história?

Como eu disse no começo desta review, a ideia de que o ser humano é um animal social já é bem antiga. Em suma: temos plena ciência, já há bastante tempo, da nossa aparentemente natural necessidade de nos relacionarmos com outras pessoas. E um dos meios mais comuns de o fazer, isso se não efetivamente o mais comum, é pela voz. Falando e ouvindo. Nishimiya, porém, não pode fazer nenhum dos dois. Ela não pode ouvir, dada a surdez, e mesmo quando usando aparelho ele não é perfeito, com as palavras soando bastante entrecortadas e confusas. Ao mesmo tempo, e como ela nunca conseguiu ouvir plenamente, ela não consegue falar plenamente. Sua pronunciação é problemática, o que faz com que suas palavras sejam bem difíceis de serem entendidas, por mais que ela se esforce. Por não conseguir se comunicar da mesma forma que os demais, ela é vista como diferente. É mal compreendida. Ignorada. Atacada. Mas… Ela é a única? A única que não consegue ouvir e falar plenamente? A única mal compreendida? Bom… Não. Pelo contrário: todos são. Quase todos os personagens apresentados tem seus momentos em que não conseguem se fazer entender e nem conseguem entender aos demais. Deixam de falar coisas. Escondem coisas. Tomam decisões sem consultar os demais. Consciente (como Nishimiya ou Ishida) ou inconscientemente (como Kawai ou Sahara), as pessoas fecham-se em um mundo próprio e ignoram o que está ao seu redor. Quando falam, não são verdadeiras. Quando escutam as palavras entram por um ouvido e saem pelo outro. Quando Ishida decide que deseja ouvir a voz dos demais, é a esta situação que ele deseja mudar. Não escutar, tão somente. Mas ouvir, entender, compreender àquele que fala.

Outro ponto que eu gostaria de comentar é sobre o desenvolvimento dos personagens. Ou, até mesmo, a sua falta de. Ah, não se enganem, os personagens são desenvolvidos, e muito bem desenvolvidos, o protagonista sobretudo. Mas… É comum, no meio da ficção, encontrarmos personagens cujo desenvolvimento se traduz numa transformação da água para o vinho, se tornando praticamente uma outra pessoa. Este mangá relativiza um pouco isso. Muitos personagens não conseguem mudar suas personalidades ou superar o seu “lado negro”. Kawai é um bom exemplo, que apesar de tudo nunca abandona por completo o seu lado interesseiro e nem consegue assumir a culpa da participação no bullying contra Nishimiya. Sahara é outro exemplo: apesar de perceber o quão negativa é a sua personalidade explosiva e o seu jeito de resolver as coisas de forma violenta, ela não consegue efetivamente abandonar esse seu lado. Mas no final… Tudo bem. Ninguém muda da água para o vinho em um espaço curto de tempo, e muito menos muda só porque quer. O que o mangá tenta colocar é interessante, porque foge dos dois possíveis extremos da questão. De um lado, temos o que eu já mencionei, do personagem que muda por completo. No outro extremos, temos o já conhecimento discurso do “seja você mesmo”, onde se incentiva que o personagem aceite seus defeitos e aprenda a viver com eles. Aqui o mangá não glorifica os defeitos, ele não diz “tudo bem ser assim” nem nada do tipo, mas ele também não propõe uma mudança drástica. Antes disso, o que ele aponta é que a intenção e o esforço em mudar pode valer tanto quanto o mudar em si, e que se houver intenção e esforço chegará o momento em que a pessoa pode superar seus defeitos. Mas esse momento é diferente para cada um e tudo bem demorar um pouco, desde que siga tentando.

Bom, isto aqui já está ficando meio comprido demais, então acho que já vou dar algumas considerações finais. Em primeiro lugar, os personagens são o ponto forte do mangá, para mim atrás apenas de suas mensagens. São personagens complexos e profundos e a interação entre eles é definitivamente interessante de se acompanhar. Nenhum deles é perfeito, mas nenhum deles é um monstro também. São pessoas, com seus próprios pontos fortes e fracos, suas próprias ideologias, preocupações, gostos, problemas, modos de ver o mundo, etc. A história, por sua vez, é em grande medida o que se esperaria de um mangá do tipo. É a sua típica busca por redenção, com o protagonista aprendendo a lidar com o que fez e encontrando meios de se reparar e de seguir em frente. E honestamente, não precisa ser mais do que isso. Entrega muito bem o que se propõe entregar, desde as temáticas mais sérias, como o bullying e o suicídio, até temáticas mais leves, como a amizade e a comunicação. Talvez minha única crítica seja para o final do mangá. Não que ele tenha sido ruim, de forma alguma, mas ele me pareceu… abrupto. Parece que o autor queria fazer mais coisa, dado um ou outro ponto solto que ficou, mas acabou tendo de encerrar o mangá ali. Ainda assim, para o que foi não foi nada mal. E embora eu gostaria de ver como Ishida e Nishimiya encarariam seus antigos colegas de classe, deixar isso para a imaginação também foi uma escolha interessante (assumindo, claro, que foi uma escolha, e não que realmente o mangá teve de ser cancelado por algum motivo, o que eu duvido que tenha sido o caso). Não é um final excepcional, mas é satisfatório para o que nos foi apresentado até o momento, o que certamente é mais do que muitas obras por ai. Uma ótima história, com ótimos personagens e ótimas mensagens. Definitivamente uma obra que vale a pena conferir.