Este Guest Post foi escrito por Guilherme Lemos para a categoria Somos todos Tanaka!. Caso tenha algo que postaria de publicar aqui no site, entre em contato aqui.

Um prólogo pessoal

16h00min, 17 de Junho de 2017.

Assistirei Mobile Suit Gundam 0080 – War In The Pocket!

Você que está lendo este post, deve ter suas expectativas quanto a esse, já que devo falar sobre esse mesmo anime. No entanto neste momento em que escrevo estas mesmas palavras, eu quero fazer algo inusitado para mim: eu estarei assistindo essa pequena obra sem saber a sinopse, quem trabalhou nela, tempo de duração ou qualquer outra informação. Não se assuste, em alguns parágrafos irei falar sobre esses elementos e também falar sobre o que eu achei da série após finalizar. Mas, primeiramente, tudo tem um começo: este post, por exemplo, começa com a minha vontade de me entreter por algumas horas. Mas toda história tem uma prequela, certo? Irei contar a minha.

Gundam. Robôs pilotados. Colônias espaciais buscando independência. Guerra.

Minha relação com Gundam começou e acabou na minha infância, na época em que passava Gundam Wing no Cartoon Network durante as noites dos dias de semana. Ela começa e acaba por aí, já que eu odiava e sempre trocava de canal. Mas alguma impressão ficou, certo? Eu sabia do conceito dos robôs gigantes sendo pilotados, mas não tinha a menor ideia do que existia antes e depois disso, e nada mudou por mais de uma década. Anos se passaram até que fui me embrenhar novamente nesse conceito. Novos gostos e concepções, um eu mais velho, mais inteligente (ou não), mas dei uma chance e como sempre: tem coisas que gostei e coisas que não gostei, mas ainda assim meu caminho com Gundam sempre foi torto, agora não é diferente.

Gundam começou com animes e depois foi se espalhando para outras mídias, mas no meu caso eu comecei nas outras mídias e agora que estou indo para os animes. Vocês não me conhecem, mas eu adoro mangás, então eu li diversos mangás de Gundam, dos diversos tipos e escopos de histórias, meu aproveitamento de Gundam é realmente muito torto em relação ao convencional.

Então, eu não sou principiante em Gundam, mas também não sou o maior conhecedor, estou em uma miríade de conhecimento de conceitos, clichês e temas que a franquia trabalha. Eu sei de coisas e não sei de coisas, talvez encarar esse anime dessa forma é algo que não se vê costumeiramente, mas vamos lá. Deu de falação, a partir desse momento, darei o play na série. Ah, esqueci, só para mencionar, são 16h14min nesse momento. Assim, acaba a primeira parte do texto, depois volto com o que vocês devem estar esperando.

Um Epílogo Pessoal

18h42min, 17 de junho de 2017.

Escrever esse texto será mais difícil do que eu imaginava. Então… Seis episódios depois e cá estamos, e tenho a sensação de ter tanta coisa para falar, mas que não sei se alguém irá ler… E nem se eu quero escrever… Como eu farei pra colocar tudo o que pensei desse anime em um texto só? Como escrever? Faço para fãs de Gundam ou faço para pessoas casuais? É algo difícil, eu tentarei me decidir durante o texto, mas vamos começar pelo usual.

Mobile Suit Gundam 0080: War in the Pocket é um OVA lançado em 1989, em comemoração aos 10 anos de Mobile Suit Gundam. O estúdio responsável é o estúdio Sunrise, e interessantemente foi a primeira vez que alguém não sendo o Tomino Yoshiyuki dirigiu alguma série de Gundam, então é realmente algo especial. O diretor foi Fumihiko Takayama, o script foi de Hiroyuki Imagawa, character designs de Haruhiko Mikimoto e designs mecânicos de Kunio Okawara e Mika Akitaka, todos esses nomes conhecidos pelos fãs de mecha em geral. É um ótimo time e fizeram um ótimo trabalho, mas vamos deixar isso de lado e falar do que realmente importa: A história.

Sinopse rapelada da Wikipédia:

Estamos em UC 0080, no final da Guerra de Um Ano. As forças de Zeon atacam uma colônia neutra em busca de um novo Gundam em fase experimental que a Terra estava escondendo. Durante a missão, Bernie Wiseman, soldado de Zeon, tem seu mobile suit danificado e na colônia encontra um estudante de 11 anos, Alfred Izuruha. Ao escapar da colônia, ele volta com uma unidade das forças especiais para destruir o Gundam. Enquanto isso, Christina MacKenzie, vizinha de Alfred, retorna para casa para ser piloto de teste do novo Gundam.

Agora que realmente complica… Como falar disso? Para quem não sabe, UC significa Universal Century, que começa em um futuro da nossa própria linha do tempo em que começamos a colonizar o espaço, é a linha do tempo mais próxima da que temos em relação ao nosso mundo. Gundam na primeira série era o nome da Mobile Suit que combateu as forças de Zeon, e no contexto do universo, foi ali que Zeon começou a perder a guerra. Então Gundam é algo realmente perigoso e que poderia mudar o rumo para pior para Zeon, é por isso que a primeira cena do anime são as forças de Zeon tentando capturar ou destruir o que estava sendo desenvolvido ali.

No contexto daquele mundo, em que colônias orbitam sobre a Terra, cada uma delas tem uma posição em relação às duas Superpotências, Zeon (Spacenoids buscando independência) ou a Earth Federation (Federação de territórios no planeta terra lutando contra), onde a história se passa é na colônia de Side 6, que inicialmente é neutra, mas isso poderá mudar conforme a história anda.

Alfred “Al” Izuruha é um menino de 11 anos, ele brinca com seus amigos, faz bagunça na sala de aula, é repreendido pelos seus professores, reclama das tarefas da escola e tem uma vida normal e costumeira.  Porém ele tem um grande interesse em ser um soldado. É como uma criança que deseja no futuro ser jogador de futebol, bombeiro, arqueólogo ou qualquer outra profissão.  Ele é uma criança que basicamente idealiza a guerra, assim como outras crianças idealizam outras profissões. Assim como nos outros casos, a guerra é um conceito que pra ele e seus amigos é algo muito distante, e ele acha a sua vida um tanto chata e brinca com seus amigos de soldado, para sair da monotonia. Ele deseja a guerra, mas não a conhece, e isso irá mudar ao longo desses seis episódios. Um dos temas que eu poderia falar que essa série tem é a infância, principalmente na visão do Al perante a guerra, e claro, tudo isso também leva a falta de conhecimento, ingenuidade e como essa percepção mudará  conforme os eventos ocorrem.

De uma maneira diferente, esse tema também aparece no nosso segundo protagonista, Bernand “Bernie” Wiseman, que é um soldado novato de Zeon, o qual conhece Al após ser abatido na primeira vez que aquela colônia viu algum combate, desmistificando até mesmo a existência de Mobiles Suits da Earth Federation. Bernie deseja aprovação de seus companheiros de guerra, ele quer fazer a diferença e quer ser proativo, mas logo de início, os motivos disso não são nada demais além de ego e sensação de cumprir o seu dever.

O primeiro encontro de Al e Bernie é algo interessante, pois por mais simples que seja, é a ponta que liga todos os personagens e eventos em um só elemento: um disquete com a informação de que é possível que aquele novo Gundam esteja presente na colônia. Até mesmo a forma como o disquete é conseguido, evoca aquela forma infantil do escambo, com algo extremamente simples como um símbolo de Zeon utilizado por militares. Al sequer se importa com a diferença de valor entre os dois objetos, ele está hipnotizado e se apega a um pequeno símbolo de guerra. E também começa aqui de maneira bem interessante e totalmente inesperada, o segundo tema principal para mim do anime: amizade. A relação entre Bernie e Al que começa com desconfiança, irá se formar em breve.

Após tentar ingressar da maneira mais infantil possível no grupo de Zeon que estava em uma missão secreta, Al acaba sendo usado como ferramenta pelos soldados de Zeon para investigar e conseguir informações sobre a colônia, tirando assim o soldado novato que ficou na posição de cuidar da criança. Tudo isso ocorrendo enquanto tanto o grupo quanto Bernie e Al procuram de diferentes formas a possível unidade sendo desenvolvida em território neutro. Nesse período de tempo também começa uma relação de amizade entre Bernie e Al, ambos que dividem certas infantilidades quanto a sua posição no mundo e seu status quo. Al está entediado com sua vida e deseja ser um soldado e participar da guerra, enquanto Bernie deseja reconhecimento, por mais que seja de uma simples criança. Eles se relacionam muito bem, Bernie sendo idealizado pela criança com suas mentiras e Al finalmente se sentindo parte de um grupo militar.

Agora a terceira protagonista é uma jovem adulta chamada Christina “Chris” Mackenzie, que é uma oficial da Earth Federation e está trabalhando no desenvolvimento do Gundam Alex. Ela é vizinha de Al e nutre um carinho por ele, até mesmo atacando Bernie quando ela pensava que ele estava roubando sua casa. Acredito que ela compõe o trio de protagonistas com o penúltimo tema: afeto, tanto por Bernie de uma forma mais romântica quanto por Al de forma fraternal.

Acredito que o anime tem quatro temas principais. Cada protagonista com um deles mais forte e que divide entre eles de certa forma. Al seria a Infância, a ingenuidade, algo ainda não tocado, ainda pueril. Bernie tem o tema da Amizade, ele cultiva com Bernie uma ótima amizade, que passa por diversos estágios, raiva, ódio, aceitação e perdão. Já Christina tem o tema do Afeto de maneira mais intensa, ela cuida de Al, e tem um afeto romântico por Bernie. O último tema é a Guerra em si, que liga os personagens e os temas em uma narrativa só e também funciona quando se reflete nos personagens. A guerra espelhada no Al, Bernie e Chris tem resultados diferentes, seja no inicio ou final da série.

Interessante também é que esses temas não são exclusivos entre os personagens principais, eles acabam aparecendo em certos pontos com outros personagens, como o afeto de um comandante para com seu soldado morto em combate. Como uma mulher bêbada gritando com o cara que terminou o relacionamento deles, e até mesmo as crianças visitando áreas destruídas pela guerra e pegando capsulas de armas. Ou até mesmo os próprios pais do Al voltando a morar juntos depois de uma briga. Um velho soldado que mesmo sabendo da iminente destruição, não quer abandonar o lugar que ama. Quem for prestar atenção, está tudo aí.

Uma das coisas que o anime manda muito bem é em estabelecer como é a vida na colônia, ver os movimentos das pessoas, o comércio entre as pessoas, a organização das pessoas naquela colônia pacífica até que o conflito comece, mas mesmo assim pouca coisa muda em relação aos backgrounds e cenários. Sentia sempre a sensação que nem todos realmente estavam preocupados com a guerra, mas como de certa forma acompanhamos através da visão de uma criança, o Al acaba sendo o ponto de vista de como vemos a guerra. Infelizmente, acho que poderia ter um pouco mais de impacto não somente nas cenas do próprio Al, mas sim no cenário, nas pessoas, no background. No entanto, acompanhando pela visão do Al, em certos pontos é possível observar isso sendo refletido nele, mas não no espaço físico da própria colônia em si.

Algo que me incomodou de certa forma é a trilha sonora, sempre muito alegre, naquele ritmo dançante dos anos 80, mesmo em cenas tensas, de combate, parecia ser só uma cena de ação, e não ficou sinergético com o tom da cena. Isso me tirou a concentração, de tal forma que preferia as cenas sem música alguma, apenas com os diálogos e efeitos sonoros. De certa forma acredito que o silêncio em muitos casos vale mais que qualquer música.

Agora quero falar da minha parte favorita de todo o anime: a história e seus personagens, principalmente a relação entre Al e Bernie, que tem o maior tempo de tela. Outra coisa que me surpreendeu, foram os dois focos: o foco em escala pessoal e o foco na escala da própria guerra e seus envolvidos. Inicialmente quando assistia, eu pensava que a guerra seria apenas o background e veria como o Al lida com essas mudanças, mas eu estava errado: ambos os focos influenciam um no outro, eles caminham lado a lado, dão força para os temas de cada personagem, principalmente com o Bernie e o Al. As sutilezas do escopo da guerra são feitas de uma maneira não direta utilizando de noticiários de TV, fofocas, cenas curtas de outros personagens secundários lidando com o fato de que inicialmente estavam utilizando território neutro para fins militares e de como a percepção da própria Zeon é alterada após um tratado de paz com a Earth Federation, levando a escolha do Al mais ao limite em se aliar com Bernie e seu grupo.

Cada um deles tem algo que o outro de certa forma deseja: Al quer a guerra idealizada que Bernie faz parte, e Bernie entende que o que todos querem na guerra é simplesmente que ela termine e eles possam seguir suas vidas. Ele quer poder voltar à colônia, não como soldado, mas sim como uma simples pessoa para visitar seu amigo. E em toda essa dualidade dos dois personagens, vemos como a amizade deles floresce, de como ela se quebra e de como eles reatam e no fundo como eles entendem o seu lugar no mundo.

Al que infantilmente acredita que Bernie irá salvar a colônia após derrotar o Gundam, e Bernie lutando de forma infantil mesmo sabendo que tem poucas chances de vencer para tentar salvar aquilo que ele deseja proteger. Com um último soco no estômago, é o fato de saber que pelo o que eles tanto lutaram sequer era mais perigo, e o Al tentando impedir isso de acontecer até esbarrar na realidade, mudando para sempre e deixando de ter aquela ingenuidade infantil. E pior: tendo de carregar todo o peso sozinho, já que ele é o único que sabe o que realmente aconteceu e o que ele perdeu.

No fim os quatro temas que falei anteriormente passam por mais um estágio: o de maturação.
O afeto de Al para com Chris, por mais que ela tenha tirado a vida do seu amigo, ele aceita a amizade dela, ele aceita de certa forma o fim de sua infância e começa agir de forma diferente, como na última cena mostra muito bem: ele cercado de crianças ouvindo um discurso sobre paz e o pós-guerra, sendo que é o único naquele grupo que realmente entende e compreende as palavras do palestrante. Ele realmente sente na pele os efeitos da guerra, lidar com a perda, e seguir em frente, pois ele entende que não pode desistir da vida, assim como seu amigo Bernie também não desistiu. Da maneira mais juvenil, ele lutou pelo o que desejou proteger, mesmo que o mundo não esteja a seu favor. A vida segue, mesmo com cicatrizes que ninguém mais pode ver.