Algumas semanas atrás discuti por algum tempo sobre qual seria a melhor saga para acabar e o final ideal para Dragon Ball Z nessa live. Em seguida, publiquei um texto argumentando o porquê de achar que a Saga Freeza seria o melhor final, mas não comentei o que mudaria nela. E claro que na live, ao vivo, é muito difícil de remontar uma narrativa tendo um cuidado com a estrutura, o fechamento dos personagens e a coerência e coesão temática. Então aqui estou eu para fazer esse exercício com vocês, leitores, de como seria um final ideal para a série animada mais amada dos brasileiros, se eu pudesse alterá-la.

Na live e no texto, comento que a saga ideal para finalizar a série seria a do Freeza, porque é a que tem a curva de ação mais digna de um final, que ainda tem uma escala de poderes que gera impacto no leitor, que fecha o mangá de Dragon Ball com a sua unidade focada no personagem do Goku, que mantém um pouco mais de coerência de universo com os 17 volumes antecedentes e que ainda conserva estrutura e conflito mais originais do que suas sagas subsequentes. Se quiserem saber mais detalhadamente dessa opinião, podem assistir à live ou ler o texto. Mas usaremos os pontos desse parágrafo para embasar o final criado a seguir.

Como Dragon Ball poderia acabar na Saga Freeza?

O primeiro e maior impeditivo seria o personagem do Gohan. O filho de Son Goku é A linha que liga a Saga Freeza com a Saga Cell. Nesse caso, o personagem teria de finalizar seu arco de personagem na jornada contra o imperador do mal. O foco de seu desenvolvimento deveria ser a mudança de um garoto comum para um guerreiro.

O nascimento de um novo guerreiro.

Quando ele é sequestrado por Piccolo, seu arco já apontava para isso. No início, forçado a lutar, mostrou um potencial para fazer algo que não gostava. Mas quando viu que sua força era necessária, tomou a iniciativa na batalha para salvar seus amigos. Com a extensão da série, Toriyama regrediu esse desenvolvimento, e transformou Gohan em um garoto gentil e que odiava lutar.

Acabando no Freeza, essa regressão nunca seria vista. O que causaria ao desenvolvimento que o garoto já passou na história original ser bem mais focado. Mas, ainda assim, faltaria a ele uma conclusão mais enfática. Durante a saga, ele deveria mostrar (fora de seus acessos de raiva) um pouco mais de iniciativa e confiança quando sua força fosse muito requerida, no lugar de sempre estar acanhado e com medo. Assim, acelerando gradualmente sua transformação em guerreiro.

Para o clímax de Gohan, o personagem deveria ter de enfrentar seu maior momento de medo e protagonizaria uma luta um tanto extensa contra Freeza, tudo isso em um último acesso de raiva. A luta, é claro, deveria gerar consequências diretas e palpáveis, como atrasar Freeza o suficiente para seus amigos fugirem e trazerem Goku. A melhor motivação para esse confrontamento seria a morte de Piccolo, seu mestre e perfeito Leão do Sacrifício. Esse conflito acabaria com seu pai – ausente – chegando e o salvando, reconhecendo sua força, mas assumindo o bastão por uma última vez.

Assim, o final ainda seria focado em Goku, mesmo que Gohan tivesse fechado seu arco dramático. Mas para trazer uma conexão entre esses dois conflitos, Kakaroto precisaria morrer definitivamente e passar o bastão ao seu filho.

Seria a imortalização de uma lenda.

Pense comigo: naquele ponto, Goku morreria lutando contra o vilão mais poderoso e incontestável de todo o universo da série, já que não existiriam androides de energia infinita, encarnações do mau rosas ou deuses acima de Kaio-sama ou Enma-Daioh. Dessa forma, fechando o caixão em tal situação, Goku seria a maior lenda de toda a existência, que perduraria por incontáveis gerações! Ao mesmo tempo, a saída de cena de Goku daria espaço para Gohan continuar seu legado, protegendo a Terra e o universo com o seu ainda não totalmente liberado poder oculto. O problema seria: como fazer?

As esferas do dragão sempre existiram e teriam, naquele ponto, revivido o mesmo indivíduo (Chaos) duas vezes. Então por que não reviveriam Goku? Nesse caso não há como escapar de inventar uma desculpa do nada, mas pensei em algo que faz algum sentido.

Depois de um novo conjunto de esferas ser criado pelos Namekuseijin, Piccolo e Kuririn seriam revividos. E no desejo para reviver Goku, este seria impedido por intervenção dos deuses maiores, Enma-Daioh e Supremo Senhor Kaio. Como ele teria já revivido muitas pessoas com as esferas, incluindo algumas mais de uma vez, e teria ele mesmo voltado a Terra sem a intervenção das esferas, os deuses considerariam sua presença no mundo dos vivos um perigo ao equilíbrio entre os mundos, assim, intervindo no desejo de Gohan.

Inclusive, até a Saga Freeza, a conexão entre o mundo dos mortos e o dos vivos não era estabelecida como física, coisa que muda quando Goku teleporta Cell para o planeta do Senhor Kaio. Então essa intervenção mística faria um pouco mais de sentido. Além disso, isso salvaria às esferas o problema de acabarem com a tensão da série, podendo sempre ressuscitar a todos, sem restrição, já que suas restrições começam a ser quebradas no momento em que novos conjuntos e dragões do desejo vão surgindo.

Como os deuses são figuras bastante cômicas e para esse final fazer ainda mais sentido, a primeira volta de Goku à Terra teria de ser mais conflituosa e o Enma e o Senhor Kaio deveriam dar uma deixa de que aquilo teria uma consequência forte no futuro ao nosso protagonista. O que aumentaria um pouco mais da tensão nas Sagas Saiyajin e Freeza.

E do momento em que eles chegam na Terra até a criação das novas esferas, o meio-saiyajin prodígio poderia ser mostrado treinando, equilibrando seus estudos com a vida de artista marcial. Na maioria do tempo estaria sozinho, às vezes estaria com alguns Guerreiros Z e talvez até junto de Vegeta de vez em quando, mostrando o desejo ainda vivo do príncipe de se manter forte e levar sua raça junto – mas de forma bastante sutil, em pequenos momentos sem necessidade de diálogo. No momento em que ele descobrisse que Kakaroto não voltaria, aceitaria com mais assertividade a posição de guerreiro protetor da Terra com o apoio de Piccolo.

Em um epílogo, os arcos dos personagens secundários poderiam ser fechados. Piccolo poderia se consolidar como um novo “pai” de Gohan, contra-balanceando a vida de estudante que o garoto teria em casa com ChiChi e fazendo-o se manter na vida de guerreiro. Kuririn, Yamcha, Tenshinhan e outros continuariam sempre treinando, mas cada um buscando seu caminho nas artes marciais e não deixando de participar do torneio. Piccolo e Gohan se manteriam afastados, treinando.

Claro que Freeza nunca teria sido resgatado e curado se a história acabasse em sua saga, e que o Trunks do futuro nunca existiria (assim como não existiria Trunks algum). Mas ainda sobraria o personagem do Vegeta para resolver.

É bom deixar claro que, sim, Vegeta se fecha completamente como personagem até aquele ponto. Seus conflitos e personalidade giravam completamente em torno de seu orgulho. Assim, no momento em que ele chora e implora a Goku que se vingue dos Saiyajin por ele, seu arco é concluído. Toda a sua humanização e seu desenvolvimento como um indivíduo da Terra surge só na saga seguinte, com o relacionamento com Bulma, o nascimento do bebê Trunks e a chegada do mesmo Trunks, mais velho, vindo do futuro.

Minha cena favorita de Dragon Ball Z

Por conseguinte, o problema que sobra, caso a história se fechasse em Freeza, seria que Vegeta estava na Terra e, apesar de fechado como personagem, não seria herói ou vilão, representando uma real ameaça. Mas dessa vez não só pensei em algo que faz sentido, mas também em algo que daria uma terceira dimensão ao personagem.

Com a morte do imperador do universo e agora sendo o ser mais poderoso da existência, Vegeta continuaria com sua ambição de poder. Tendo se sentindo vingado, sairia em busca de restaurar seu planeta e raça, aproveitando-se também do vácuo de poder deixado no império de Freeza. Mas antes de sair da Terra, ele mostra certo pesar em saber que virou o ser mais poderoso do universo, já que isso só aconteceu por causa da morte de Goku. É isso o que aconteceria na última cena do meu final da história e eis como a imaginei (é algo bem bruto, que acabei de pensar, mas aqui está):

Vegeta (que havia se afastado da multidão, assim que descobrira que seu tão esperado rival não poderia voltar à vida) aparece na Corporação Capsula em busca de uma nave.

Logo depois chegam os Guerreiros Z, que o questionam: “Onde você está indo? O que você pretende?”

Vegeta: “Eu sou o guerreiro mais forte do universo, agora. Irei restaurar o orgulho de minha raça. Preciso de uma nave.”

Gohan: “E se lhe dermos uma nave, promete que nunca mais irá atrás das esferas do dragão ou fará mal a Terra?”

Vegeta: “Eu não pretendo fazer nada contra vocês. Não mancharia o sacrifício de Kakaroto.”

Gohan: “Podemos confiar em você?”

Vegeta: “Caso eu mude de ideia, vocês só precisam estar preparados.”

E , então, ele encara diretamente o meio-saiyajin.

Em seguida, a nave parte, deixando Gohan encarando as estrelas.

E assim, caros leitores, seria o meu final ideal para Dragon Ball.