Aku no Hana aborda vários assuntos dentro do que pode ser considerado um thriller de adolescentes que não se entendem, mas nele também é abordado a procura pela felicidade, e isso me fez refletir bastante sobre o assunto e sobre o lugar da felicidade no mangá.

Nakamura Sawa é uma menina estranha, e muito mais estranha era a relação dela com o protagonista, Kasuga. Em certo ponto do mangá Nakamura revela, entre uma e outra espiral de loucura, seu grande desejo, atravessar as montanhas e viver o que o grande mundo poderia oferecer, livre e longe das pessoas daquela comunidade que eram satisfeitas com o que ela interpretava como vidas miseráveis e sem sentido, e entre elas, sua própria família. O “outro lado” das montanhas era seu grande objetivo.

O outro lado aqui representa o sonho de felicidade realizado unicamente pela desconexão dessas pessoas. Isso se não fosse pela maturidade atingindo ela em cheio no meio do percurso e tornando o mangá bem mais melancólico.

Você leitor, é feliz? A nossa visão de felicidade muda bastante enquanto crescemos, e talvez, não mude tanto para alguns já que toda pessoa sabe de suas próprias limitações, mas em geral a nossa interpretação sobre se altera durante a adolescência.

Pessoalmente, eu só fui me importar com felicidade quando tive minha primeira decepção amorosa e conheci o quão amargo poderia ser o gosto da desilusão para um  garoto de 13 anos extremamente ingênuo. Antes disso eu nunca tinha sequer pensado se eu era feliz ou não, e depois desse momento, se tornou uma das minhas maiores preocupações até hoje e potencialmente continuará sendo até o fim da minha vida.

Após isso, uma idealização e busca pela felicidade pautaram minhas decisões porque obviamente eu seria feliz se eu cumprisse meus objetivos, seguisse meus sonhos (que até hoje ainda estão longe demais de serem alcançados). Felizmente, cada derrota subsequente servia para algo a longo prazo, já que a curto prazo eu só queria deixar de existir (e nem era grande coisa olhando em retrospecto, sempre fui dramático). Eu sempre repensava como eu poderia viver bem comigo mesmo enquanto a felicidade ainda estava longe de mim, idealizando objetivos que fariam todas as peças se encaixarem diante de mim, a solução do grande enigma. E isso é exatamente o ponto em que conhecemos Nakamura Sawa.

Porém, em um ponto da minha juventude, como uma virada de chave, eu percebi a felicidade. A forma como você vê o mundo e vê a si mesmo definem completamente seu humor, felicidade e satisfação pessoal, assim como os curtos e preciosos momentos de maior alegria que podemos ter durante a vida que surgem de maneira completamente arbitrária e gravam suas existências em nossa memória.

Eventualmente, Nakamura também tem essa mudança de perspectiva, de estabelecer objetivos e trilhar o caminho para a felicidade para o modo como você vê o mundo e as pessoas ao seu redor, assim como ocorreu comigo e potencialmente com uma boa parcela de quem está lendo isso. Nakamura nem precisava olhar para dentro de si para saber o quão vazia ela mesma se sentia: além de nojenta, fraca e incapaz de ver uma luz que pudesse fazer ela mudar, o outro lado não significaria nada se ela continuasse a mesma.

E então temos um dos grandes momentos do mangá: Nakamura reconhecendo a própria impotência para com a vida e ela mesma bem na frente de Kasuga. Para algumas pessoas, esse auto-diagnóstico é simplesmente aterrorizante e seria ainda mais levando em conta a idade dos personagens, que seria algo por volta dos 14 anos.

Com o time-skip do mangá e a personagem deixando os holofotes, essas perspectivas sobre felicidade que eram algo estritamente da Nakamura e não do Kasuga (já que a temática com ele até o momento era bem mais sobre identidade), as quais foram se moldando com o tempo, acabaram resultando na aparição da Nakamura no fim do mangá, em que ela parece ser uma pessoa completamente diferente, porém, ainda familiar. E esse é meio que o caminho natural das escolhas de perspectiva que você pode ter durante a vida, de uma forma exagerada, escolhendo viver a vida como pode, sem necessariamente almejar algo e, se acontecer, brincar na praia às vezes, valorizar os pequenos momentos que valem a pena.

Nakamura sempre foi um mistério, e acho bem interessante essa temática da busca da felicidade também terminar em um mistério junto da personagem. Ela com certeza não está satisfeita com a vida, mas agora ela pode aproveitar os pequenos respiros de ar fresco e achar a felicidade onde quer que esteja.