No sábado do dia 3 de junho, a comunidade otaku foi à loucura com o episódio 10 da segunda temporada de Boku no Hero Academia. Em pouco tempo, a luta entre Izuku Midoriya e Shoto Todoroki era uma das mais acessadas no Sakugabooru. E muito se falou sobre o clímax e o trabalho incrível dos sakugas de Yutaka Nakamura. Mas por mais estonteante que essa parte do episódio seja, o tópico a se discutir sobre a luta aqui é outro.

Para quem acompanha Boku no Hero, sabe que os confrontos pelos quais os heróis passam sempre têm uma base dramática muito bem fundamentada pelos seus conflitos e motivações. E além da luta em questão não ser diferente, ela ainda é mais.

Na saga atual do anime (dos jogos esportivos), o objetivo de ser o número um está em evidência ainda mais do que antes, já que o mundo inteiro assiste às competições, julgando os competidores para, talvez, oferecer-lhes alguma oportunidade profissional ou para simplesmente entender o potencial dos alunos da UA. E os nossos dois atores são os que se sentem mais pressionados em relação a essa oportunidade.

Todoroki quer a todo custo provar que pode ser o maior sem a ajuda de seu pai, que é a razão de todas as suas dores. Ele enxerga na luta contra Deku a oportunidade de tirar essa prova enquanto Endeavor os assiste, já que o protagonista é muito ligado ao All Might. A gana que ele demonstra desafiando o protagonista no início do torneio e na cavalaria, tomando atitudes drásticas para vencer logo o Seru e terminar a corrida de obstáculos são uma excelente construção para o estado desequilibrado do personagem, o que, por conseguinte, cria o cenário necessário para que o discurso e o confrontamento do Midoriya incentivando-o a dar tudo de si funcione. Isso por mostrar a ele que, ao se entregar pela metade ele está desrespeitando o oponente – assim como os alunos da Classe B, na prova anterior -, a sua responsabilidade como herói e o próprio objetivo por causa de um orgulho sem sentido.

O que é um conflito muito bom, mas ainda não é o grande destaque do episódio 10. Afinal, seu flashback não é salvo de falhas, justificando mal algumas ações tomadas nele. Como a razão pela qual sua mãe o queimou com água quente, por exemplo. Só temos uma pequena informação rasa sobre o relacionamento dos pais do Todoroki, o que faz parecer que tal atitude beira o inverossímil. Mas por outro lado, o sacrifício de Deku é sim o que leva essa luta a outro nível.

Se existe uma qualidade maior a todas as outras qualidades de Boku no Hero, essa se encontra na construção do Deku. Desde seu primeiro momento em perigo, ele mostra que é incapaz de negar ajuda a alguém, que sempre arrisca a própria vida instintivamente sem nem entender o que está acontecendo. É assim quando ele corre contra o vilão de esgoto para salvar o Bakugo, quando derrota o robô de 0 pontos para salvar a Uraraka, ou quando enfrenta a associação dos vilões inteira para tentar ajudar o All Might.

Midoriya Izuku, pelo o que a série continua nos reforçando constantemente, não fora escolhido pelo seu ídolo por acaso ou por um capricho seu, foi escolhido porque é, no seu âmago, o que todo herói deve ser. Ele é capaz de ferir a si mesmo gravemente, aguentar a dor e sacrificar sua chance em um momento tão importante só por ter entendido o fardo de seu oponente.

O que é grande coisa, pois para um aspirante a herói que sente a pressão de carregar o maior dos poderes, passado a ele por seu grande ídolo, o evento esportivo era o melhor palco para que ele se apresentasse ao mundo e se mostrasse digno do fardo que carrega. E o fato de Deku quase não poder usar esses poderes agravaria ainda mais essa pressão, já que tanto teria que dar um jeito de passar por algumas provas sem a individualidade, quanto se sentia inseguro sobre a legitimidade da sucessão.

A batalha ainda traz consequências bem diferentes das que costumamos ver no resto da série. Porque até então, Boku no Hero havia sido leniente com os exageros de Izuku. Ele arriscou sua vida e foi recompensado com o One For All, sacrificou sua chance de ingressão na UA e foi recompensado com uma vaga, lutou contra Nomu e Tomura e saiu sem muitas consequências.

Porém, no caso dessa luta, todo o momento após seu término é de julgamento e repreensão. A Recovery Girl se nega a curar Deku novamente e é expressa ao dizer ao All Might que ele não poderia parabenizar seu sucesso. Os heróis o julgam como um futuro profissional sem muito potencial. E, é claro, as cicatrizes na sua mão serão um lembrete eterno de que o protagonista não poderia mais agir tão displicentemente.

Por fim, Midoriya ainda perde sua vaga e sua chance de dizer olá ao mundo. E essa displicência do personagem para com seu próprio objetivo faz a luta ter um peso dramático incrível, que quando chega no clímax, no momento em que Todoroki é alcançado, as lágrimas ocuparam o rosto daquele vos fala.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

Ainda assim, há mais. Mas, para chegar lá, vamos precisar partir do começo, lá da primeira temporada.

Desde que a Mount Lady aparece no primeiro episódio, nos é mostrado que os heróis se importam muito mais com a fama do que com serem heróis virtuosos. A recém-profissional sai de formação, coloca os cidadãos em perigo e destrói propriedade pública só para aparecer para os jornalistas. E esse comportamento é tão constante em Boku no Hero Academia que o Assassino de Heróis deixa bem claro em seu discurso que o heroísmo virou uma posição sobre ego e dinheiro.

O pretensiosismo começava aqui.

Analogamente, o torneio que a UA realiza segue esse modelo. Ali, os heróis são colocados uns contra os outros para aparecer. Eles têm que fazer de tudo para derrubar seus adversários, ficar em destaque e ser o maior. É, junto de uma disputa de habilidades, uma disputa de egos, de imagem.

Essa hierarquização de heróis acaba por ser bastante contraproducente para uma posição em que ser virtuoso e altruísta é o objetivo idealizado. Não por acaso vemos toda a plateia incompreendida quando Bakugo “tortura” a Uraraka em batalha. Em vontade de se mostrarem virtuosos, os heróis profissionais assistindo à partida demonstram o quanto são rasos, quase vazios, quando se tratam de suas virtudes como heróis.

O mesmo acontece com Shinso, que se mostra um herói com um potencial gigantesco, mas que foi ignorado por sua habilidade não se encaixar no julgamento de admissão metódico da UA.

Esse fato embasa muito a reação também da plateia na luta do Deku contra o Todoroki. Os profissionais entendem a atitude do Deku como simplesmente irracional, julgam que o garoto parecia não querer ganhar, e que agiu daquele jeito sem propósito.

A imagem de herói, para os profissionais que vimos na plateia, com certeza existe e é a mesma imagem do “Super-Homem” que conhecemos. Afinal de contas, eles veem como desonrosa a atitude do Bakugo, entendem o erro sistemático no teste de admissão da UA e até têm razão quanto à displicência do Deku. Mas, em todos esses casos, o julgamento da plateia é extremamente raso e se deixa levar muito pela imagem superficial que carregam do heroísmo.

Sempre entendi a imagem do All Might como dúbia. O fato dos olhos não aparecerem enquanto ele sorri e dele muitas vezes aparecer coberto de sangue e desgrenhado me dá a impressão de que ele, propositalmente, não é um herói perfeito. E muitos outros pontos de sua história reforçam isso.

Deku, por outro lado, consegue fazer o sacrifício mais difícil para um herói, que é o de abandonar sua própria imagem em prol de outrem, coisa que os profissionais da plateia se mostraram incapazes de compreender. Em verdade, o protagonista nem ao menos apela para a solução fácil da violência desmedida, que faz os vilões colocarem em cheque mesmo a imagem do All Might, o grande herói que sempre teve muito sangue derramado em seu nome.

Midoriya se desvencilha não só da sua imagem, mas também de seu corpo, com o único propósito de tentar atingir outro ser humano. O sacrifício dele significa muito mais do que nós, o All Might, o Todoroki, o Endeavor ou mesmo o próprio Deku viram. Ele, além de barulhento e espalhafatoso, é também um protesto silencioso.

Assim, Boku no Hero Academia, junto do “Maior Heróis de Todos”, Midoriya Izuku, continua a jornada para entender como é o novo herói, que junta as virtudes do passado e a auto-consciência do presente.

P.S.1: vale um pequeno comentário sobre como o anime conseguiu nos fazer sentir a dor do Midoriya. A sonoplastia, os movimentos, as expressões, a cor do sangue, tudo deixa o sacrifício do protagonista mais pesado e visceral. Mesmo as expressões, que sempre foram um deleite especial do mangá, ficaram muito bem executadas aqui, passando um mix de emoções conflituosas que oscila entre satisfação, medo e dor. E quando Deku e Todoroki riem plenamente diante dessa dor, é como se dois heróis completos estivessem ali, encarando um ao outro com a compreensão plena da posição que ocupavam e do que acabavam de resgatar.

P.S.2: o momento em que o Bakugo se insatisfaz dos comentários da plateia sobre o Deku é excelente. Mostra como o garoto das explosões é bastante compreensivo sobre o papel de herói, entendendo a atitude do colega, e cria um pequeno ponto de empatia entre os dois, já que ele é quem havia sido julgado em uma luta anterior.

P.S.3: a luta tem outras consequências bastante importantes para ambos os personagens, mas me limitarei a falar só sobre o que já aconteceu no anime.