O ano de 2016 foi um ano bastante marcante para os animes. Mesmo não tendo um fenômeno de popularidade como One Punch Man, do ano anterior, a indústria ainda produziu muitas obras de relevância, tanto no viés artístico quanto no viés técnico.

Obras premiadas e de muito clamor foram adaptadas, novas técnicas de animação entraram na indústria, mais projetos com um investimento financeiro acima da média foram transmitidos e até a participação feminina na produção de animes, assim como o foco no público feminino, aumentaram e ficaram em evidência.

E, para um ano desses, o Tanaka não pôde simplesmente lançar o Awards sem antes falar das 10 séries que, para a nossa equipe, se qualificam entre as 10 melhores de 2016!

MAS ANTES!… ÀS MENÇÕES HONROSAS:

91 Days

Kiznaiver

Yuri!!! On Ice

Flip Flappers

Pokémon XY & Z

Boku Dake ga Inai Machi

Boku no Hero Academia

Planetarian: Chiisana Hoshi no Yume

AGORA SIM, À NOSSA LISTA DOS 10 MELHORES ANIMES DO ANO:

Hibike! Euphonium 2

Escrito por Eduardo Eugênio

A segunda temporada do excelente Hibike! Euphonium (que ganhou melhor anime adaptado no Tanaka Awards de 2015) trouxe de volta tudo que fazia seu antecessor se destacar acima dos outros e adicionou ainda mais a sua fórmula. Mantendo o nível altíssimo de animação que a primeira temporada estabeleceu, o anime nos presenteia com mais apresentações de tirar o fôlego (entre elas, está a que eu considero a melhor da série toda em geral) e com um character acting que adiciona mais uma camada de realismo aos personagens.

A história possui um “drive” mais emocional nessa temporada: a Kumiko Ouma passa por conflitos mais dramáticos, tanto no seu âmbito familiar quando no clube, vemos mudanças nos antigos relacionamentos e também novos sendo estabelecidos. Essas relações e conflitos, junto com os desenvolvimentos pelos quais os personagens passam durante a série (destacando os da Asuka Tanaka e os da Kumiko Ouma que são especialmente incríveis) são muito bem executados ao longo da série, deixando toda a experiência mais orgânica, junto de um impacto emocional não muito presente na primeira temporada. Dessa maneira, todos esses elementos juntos culminam em uma conclusão agridoce extremamente satisfatória, tanto para os personagens quanto à série em geral. E é por isso que a segunda temporada de Hibike! Euphonium está entre os melhores animes do ano.

JoJo’s Bizarre Adventure Part 4: Diamond is Unbreakable

Escrito por Eduardo Eugênio

Após a decepção que foi a parte três, a inevitável parte quatro de Jojo’s Bizarre Adventure carregava um peso enorme em suas costas: ela podia tanto redimir a série quanto afundá-la completamente. Felizmente, ficamos com o primeiro caso; e não apenas a redimiu, como também deu uma nova vida à franquia em geral.

Com um tom mais leve e bem-humorado (que cria excelentes episódios cômicos), junto de um design mais simples, somos apresentados à cidade de Morioh e ao nosso novo protagonista: Josuke Higashikata. Assim, começamos a acompanhar suas aventuras junto de seus companheiros nessa cidade bizarra. A dinâmica entre os personagens é bastante orgânica, além dos personagens em si serem muito carismáticos, e, em sua maior parte, desenvolvem-se bem ao longo da trama. Também contamos com o excelente vilão Yoshikage Kira (provavelmente o melhor que a franquia já teve e vai ter) que age muito bem como um contraponto aos nossos heróis.

Diferente das partes anteriores as quais se passam em locações exóticas do mundo, a parte quatro situa-se inteiramente na pacata e misteriosa cidade de Morioh, que acabou se tornando muito importante para a identidade desta temporada. A cidade influencia os personagens tanto quanto eles a influenciam: é realmente uma cidade viva, não só pela excelente caracterização visual do anime, mas por dar tempo e construção para nos familiarizarmos com ela. Nós sabemos onde os personagens moram, a escola que eles vão, os lugares os quais eles frequentam após a aula, os supermercados que eles usam e até mesmo pontos turísticos e mitos da cidade são construídos de uma forma que faz você pensar ser uma cidade de fato. O próprio conceito dos Stands que foram introduzidos na última parte é melhorada, com os poderes apresentados expondo habilidades mais originais e gerando lutas ainda mais criativas, estratégicas e empolgantes.

Por fim, mesmo que não tenha a animação mais consistente do mundo, a parte técnica de Jojo nos é retratada com uma direção mais criativa do que nunca e uma trilha sonora excelente que bate de frente com as das partes anteriores. Diamond is Unbreakable é realmente um marco, tanto para saga de Jojo’s Bizarre Adventure quanto para os animes de 2016.

Amanchu!

Escrito por Pedro Santos

Slice of life é um gênero curioso: mesmo sendo algo único da mídia dos animes e mangás, muitas vezes é desprezado porque não acontece nada ou porque não trata de nada. Apesar de lamentar esse desprezo, concordo que, quando um Slice of life não possui uma execução competente e ainda não trata de nenhum tema em específico, é difícil ter uma boa experiência. Entretanto, o que faz com que Amanchu! se destaque entre as obras do gênero no ano de 2016 foi a sua execução e, principalmente, sua consistência na unidade temática estabelecida desde os primeiros minutos de seu primeiro episódio, resultando na entrega de uma mensagem valiosa.

Através de uma atmosfera suave e ao mesmo tempo contemplativa construída delicadamente por Junichi Sato (Aria Series, Princess Tutu) e Kenichi Kasai (Honey & Clover, Bakuman.) a série envolve o espectador em situações cotidianas que são redescobertas: ao se observar de uma ótica diferente da qual estamos acostumados, o que antes parecia uma situação comum e descartável, passa a ter um valor muito maior, como a descoberta de um novo tesouro. A personagem Hikari Konihata, especialmente quando interage com a protagonista Futaba Ooki, abrange toda essa mensagem da série. Com atitudes excêntricas e curiosas, Hikari convida o espectador junto de Futaba a sair da sua zona de conforto e explorar todo um mundo novo de descobertas, sejam elas o simples fato de entrar em um piscina até a complicada atividade de mergulhar no fundo do mar. E é a partir dessa exploração que a protagonista constantemente cresce ao longo da série com a resolução de seus conflitos, resultando em uma entrega ainda melhor executada da mensagem.

Mesmo apresentando problemas na execução de sua comédia (a qual possui uma presença relativamente constante), Amanchu! não só destaca no gênero de Slice of life, como também entre os animes de 2016 como um todo.

Haikyuu!! Segunda e Terceira temporadas

Escrito por Eduardo Eugênio

2016 foi um ótimo ano para Haikyuu!!. Tivemos a metade final da segunda temporada e a terceira temporada completa (que teve apenas 10 episódios). Nesses 35 episódios, Haikyuu!! conseguiu manter a ótima qualidade da primeira temporada, além de expandir os horizontes da franquia.

Continuamos a acompanhar o time da Karasuno se reerguendo após a derrota contra o Aoba Johsai e novamente lutando para uma chance de alcançar o nacional. Os personagens continuam a ter um desenvolvimento incrível (com destaque ao Tsukishima Kei que recebe tanto foco quanto nossos protagonistas na terceira temporada), além de sermos introduzidos a inúmeros novos e carismáticos personagens de escolas rivais, principalmente os da escola Shiratorizawa, fazendo um bom contraponto à Karasuno.

A animação continua sendo uma das melhores que o gênero de esporte já teve, com sequências incríveis, energéticas e extremamente impactantes que deixam o espectador sem fôlego e animado por toda a partida. A trilha sonora também é um dos pontos fortes de Haikyuu!!, sendo um bom complemento e adicionando ainda mais impacto e profundidade às cenas.

Os aspectos audiovisuais do anime contribuem com o roteiro original forte do mangá para criar uma das experiências mais excitantes e incríveis que tive com animes em 2016. É algo que eu diria que não vai marcar só o ano de 2015/2016, mas também vai deixar sua marca como um dos melhores animes de esporte já produzidos.

Mob Psycho 100

Escrito por Igor Mendonça

Mob Psycho 100 tem dois elementos muito atípicos para animes. Um deles, que se aplica só aos animes em série, sendo a animação fantástica, ousada, inovadora e consistente. E o outro, que se aplica ao próprio conceito de narrativa per sé, sendo o pregar do desprendimento da pessoa para com seu próprio ego e imagem.

Tecnicamente falando, Mob Psycho é a série mais bem produzida do ano. A direção não deixa a desejar em momento algum, tendo um storyboard com vários quadros de destaque, mesmo retratando momentos de conflitos simples; a trilha sonora, mesmo estando aquém do esperado (até porque contava com o compositor de Ghost in the Shell), cumpre bem sua função e passa toda a gama de sentimentos que vem com o caos hormonal da puberdade; e a animação, que é de um deleite único não só para as séries animadas japonesas, mas também para o cenário da animação como um todo, já que emprega e harmoniza inúmeras técnicas -algumas recentes no mercado- em um projeto comercial e barato.

Mas claro que a peça não para por aí. Mob Psycho 100 além do primor técnico, trata, talvez, do tema que mais toca a nós, indivíduos em uma sociedade onde o ego de cada um se pronuncia, expande e ganha vida em um ambiente virtual. A série alivia a tensão da nossa necessidade de se sentir especial em uma sociedade onde todo mundo pode ter seus minutos de fama. E faz isso através de personagens excelentes, alguns com um conflito escondido pela imagem que criaram de si, outros escondendo a própria imagem enquanto tentam fazer o bem, outros buscando simplesmente uma satisfação individual, etc. E tem, claro, o Mob, que é só um menino bom em algo tentando buscar o que lhe faz bem.

E essas duas características não são tão diferentes do que vemos em One Punch Man (série exibida no ano anterior e criação do mesmo autor), mas aqui as temos levadas a outro nível, com uma trama bem mais focada, uma comédia com função pragmática, conflitos consistentes que se resolvem em arcos bem estruturados e uma animação muito dinâmica e adaptável ao que a cena e o enredo pedem.

Kanojo to Kanojo no Neko: Everything Flows

Escrito por Pedro Santos

Se houve uma coisa que eu realmente aprendi com os animes de 2016 foi a de não desprezar os shorts. Isso porque as melhores séries do ano se encontram nesse formato, sendo uma delas Kanojo to Kanojo no Neko: Everything Flows, curiosamente, uma adaptação animada pelo estúdio Lerche de um outro curta de 5 minutos feito pelo famoso Makoto Shinkai, sendo nomeado apenas como Kanojo to Kanojo no Neko. O mais curioso ainda, é observar como o título (especialmente o “Everything Flows”), resume perfeitamente a história, a atmosfera e, principalmente, a mensagem da obra.

A história consiste basicamente no dia-a-dia da jovem Miyu com seu gato (Daru) quando ela passa a viver sozinha em um apartamento. Por essa descrição temos também um coming of age, o qual trata das dificuldades da chegada da vida adulta. Nesse caso, especialmente quanto às dificuldades de viver de forma independente e em como nós lidamos com isso, destacando situações como a procura de um emprego para se sustentar, por exemplo. Tudo isso pela visão de um gato que conviveu com sua dona praticamente toda sua vida, o que leva a outro fator importante da obra e do coming of age: a passagem do tempo.

Tal fator é retratado com extrema competência pela envolvente e melancólica atmosfera criada pelo diretor Kazuya Sakamoto, um ex-profissional da Kyoto Animation, que trabalhou constantemente em séries como Hyouka, K-On! e Nichijou. Contando em seu currículo tamanha experiência em trabalhos de excelente qualidade audiovisual, o resultado em Kanojo to Kanojo no Neko: Everything Flows não poderia ser diferente: mesmo não apresentado o altíssimo nível de animação das séries citadas anteriormente – apesar de muito cuidadosa ao retratar as nuances nos movimentos do gato -, o ótimo storyboard nos coloca de forma inteligente na perspectiva de Daru; a fotografia, através de um bom uso da iluminação e da paleta de cores, confere ao visual uma impressão ao mesmo tempo rotineira e naturalista; e a edição confere à curta narrativa um ritmo orgânico, demonstrando a espontânea passagem de tempo aos olhos do pequeno felino através de match cuts e dissolves entre várias cenas. Além disso, Sakamoto se utiliza de uma eficiente imagética que novamente reforça tal passagem, expondo, por exemplo, a mudança das estações ao longo dos meses e o rotineiro transcurso de um trem perto do lar de Miyu.

Dessa forma, assim como é explicitado no título, a obra nos mostra que tudo na vida passa, flui – inclusive ela mesma. Momentos de felicidade, tristeza, perdas e conquistas vão e voltam em um constante ciclo conforme crescemos – aspecto cíclico que é excepcionalmente bem pontuado na narrativa após o encerramento no último episódio, inclusive -; nesse sentido, ao enfrentar esse complicado processo, é bom estarmos acompanhados daqueles que nos fazem bem, mesmo que alguns desses, como Daru, não entendam plenamente o que queremos dizer. Porém, somente pelo simples fato de estar lá e nos acompanhar nos diversos momentos do nosso crescimento, já faz toda a diferença.

Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo!

Escrito por Igor Mendonça

Sempre vai ser surpreendente lembrar como Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo! subverteu completamente as expectativas de todos. Não só era um anime com um character design, tema e ambientação completamente genéricos, mas também era um anime competindo a atenção do público com outras séries de tema semelhante e com muito mais apelo. E, ainda assim, KonoSuba (resumidamente como a série é conhecida) conquistou seu espaço com uma sátira hilária ao sub-gênero de ser um hikikomori transportado para um mundo de fantasia.

Na série, todos os elementos são, em certo aspecto, sátiras. Mas nenhum desses elementos se resume a só isso. Os personagens não são uma piada só, eles são antes de tudo, pessoas. Com personalidades marcantes, um toque de malícia necessário para se viver no mundo medieval, e toda a nuance de emoções que se espera de personagens bem caracterizados. As piadas não são só subversões de clichês, são situações bem montadas, com uma resolução criativa que em geral parte da malemolência do protagonista Kazuma Satou, ou do completo descompromisso das integrantes de seu grupo. E a trama não se resume a um check-in de piadas com o sub-gênero. Na verdade, tudo em KonoSuba, incluindo os momentos mais escrachados, têm uma conexão muito forte, dando peso a tudo que acontece na série e brincando ainda mais com a expectativa do espectador.

Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo! tem toda a base que uma boa história precisa ter, personagens muito bem construídos e utilizados e uma história muito coesa, com o adicional de um excepcional timing cômico, que se aproveita muito da construção e imagética de seus personagens e de uma sátira precisa.

Uchuu Patrol Luluco

Escrito por Igor Mendonça

Para muitos, Luluco pode ter passado como uma história de amor nonsense e com muitas referências. Mas, para quem assistiu preparado para um bom trash, Luluco foi a encarnação da puberdade -até à base de sua estrutura- servindo como alegoria ao amor dos produtores e espectadores da Trigger para com os animes do estúdio.

Estruturalmente Uchuu Patrol Luluco não foi só bagunçado, foi tão de extremos como toda adolescência deve ser. Se em um momento você está em uma situação constrangedora rodeado de pessoas estranhas e se sentindo deslocado, em um outro você encontra o amor da sua vida. E tudo acontece muito rápido, quase como se fossem cada momento um episódio de 7 minutos transmitidos um em sequência do outro, com um intervalo exato de uma semana entre as transmissões. No caso, em Luluco, é exatamente isso que é. A atmosfera da série consegue ir de impessoal nonsense para intimista passional em segundos.

E é incrível como a composição da série consegue manter uma coesão dentro desse furacão, criando cliffhangers que sempre caem em um episódio seguinte muito diferente do anterior (salvo, claro, a exceção do segundo ato, que é realmente uma pequena barriga para a série) e também como cada um desses momentos funcionam tão bem individualmente. Quando a protagonista está para se apaixonar, a presença do seu amado, o ambiente, os diálogos, a presença dos personagens em cena e até a trilha sonora fazem você se apaixonar junto.

E não é só isso, porque a série, além de retratar a puberdade, faz inúmeras referências a obras antigas do estúdio e obras antigas do seu diretor. Referências essas que crescem ao longo da trama, culminando em um episódio onde a punchline é toda construída em cima da descrença do espectador de que a série vai ter a pachorra de ser ainda mais escancarada nas referências. E, para quem conhece a Trigger e Hiroyuki Imaishi (diretor de Luluco), sabe que suas produções são como a puberdade: passionais, caóticas, estranhas e únicas.

Então fazendo uma ode à puberdade, Luluco não só exalta a paixão ou a identidade que cada um encontra ao passar por essa fase, mas exalta também a si e a todas as suas predecessoras como narrativas. Exalta a eterna busca pela beleza do amor idealizado, análoga ao amor à arte. Nesse caso em específico, a arte de contar histórias. E, por toda essa poesia e paixão e mais uma execução muito bem feita, Luluco é um dos melhores animes do ano. Se não o melhor.

Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu

Escrito por Pedro Santos

Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu, ou, para facilitar, Rakugo Shinjuu, adaptação de um mangá de mesmo nome com autoria de Haruko Kumota, foi para mim o anime mais intrigante do ano de 2016. Despertou o meu interesse a uma arte que ao mesmo tempo é totalmente nova mas também reconhecível, me fez pesquisar mais sobre o contexto social japonês do pós Segunda Guerra Mundial e até motivou reflexões sobre a natureza de uma história e daqueles que a contam. Não à toa, a série rendeu um grande Tanaka Sentai (caso esteja procurando por uma discussão mais aprofundada sobre o anime, é só clicar aqui para ser redirecionado ao podcast), em que eu, o Igor e a Chell (do Not Loli!) discutimos em detalhes. Isso porque, mesmo sendo somente a primeira temporada, Rakugo Shinjuu se provou como um trabalho de ficção extremamente sólido em todos os seus aspectos. O que garante, assim, seu lugar como um dos melhores animes de 2016.

A começar pelos personagens, especialmente o trio principal dessa temporada: Kikuhiko, Sukeroku e Miyokichi. Colocados em um interessante contexto de pós Segunda Guerra Mundial, em que a sociedade japonesa está passando por drásticas mudanças, com diversos costumes sendo abandonados e questionados, seus conflitos surgem de maneira orgânica, por conta de uma meticulosa e gradual construção desses. Não só isso, tais conflitos trazem à tona e permeiam vários dos principais temas da série, essencialmente, o tradicional versus o novo, a morte – em diversos aspectos -, o peso e o fator trágico de heranças: tudo isso com o foco na arte japonesa do título da obra, o rakugo. Tais temas, junto dos personagens, vão crescendo e se entrelaçando cada vez mais ao longo do anime; dessa forma, estabelecendo-se uma unidade narrativa e temática muito bem estruturada, mesmo que a história não esteja completa.

Claro, para que tudo isso tenha ocorrido de fato, era necessário de uma execução à altura do conteúdo da obra. Sendo assim, o nome do estúdio Deen na produção da série causou -compreensivelmente- o temor de muitos. Felizmente, o que na verdade tivemos foi uma execução primorosa por parte do diretor Shinichi Omata e sua equipe. Demonstrando uma certa influência do estúdio Shaft, local o qual trabalhou anteriormente, Omata utiliza na medida certa os experimentalismos que entrou em contato, além de sua própria originalidade, para conceder a Rakugo Shinjuu o storytelling certo para o tipo de história que este o é. Isso por saber utilizar de forma muito inteligente o ambiente para contar a história, especialmente nas apresentações de rakugo, ao comunicar diversas nuances através de uma edição precisa e de um storyboard talentoso; e, também, pela manipulação acurada da misé-en-scene na obra como um todo, conferindo um tom teatral à narrativa, característica notável do estilo de Omata. Com isso, os personagens e os temas se elevam de uma maneira a não só funcionarem a partir de uma perspectiva particular japonesa, mas também universal, ao refletir sobre a tola e especialmente contraditória natureza dos seres humanos.

Enfim, por tudo isso e pela ótima experiência que tive ao consumir essa primeira temporada de Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu, não o considero somente como um dos melhores animes de 2016, como também, na opinião deste que vos escreve, um dos melhores dos últimos anos.

Fune wo Amu

Escrito por Pedro Santos

Sempre achei muito curioso a criatividade que os japoneses possuem de inventar propostas para suas histórias, especialmente quando se trata de animes e mangás. Digo, mesmo para o Awards dos animes de 2016, até criamos duas categorias que envolvem as propostas mais inusitadas em shorts e séries de TV. E mesmo que a proposta de Fune wo Amu não seja a mais inusitada do ano se pensarmos nessas categorias, ela é, no mínimo, curiosa: uma série sobre o longo processo de produção de um dicionário que busca registrar a língua da maneira como ela é usada no cotidiano, com gírias, jargões, expressões figuradas, etc. Muitos, ao se depararem com tal proposta, perdem a vontade de conferir a série: afinal, quem quer ver um anime sobre o dia a dia de personagens editando um dicionário? Bom, de forma surpreendente, eu diria que Fune wo Amu (ou, em inglês, The Great Passage) é uma série que vai além de simplesmente retratar o processo de produção de um dicionário.

Fune wo Amu é uma animação que passou no bloco noitaminA, que construiu sua identidade como um espaço na TV onde passavam várias séries adaptadas de mangás josei – demografia voltada para mulheres adultas – e também mais… alternativas. Infelizmente, nos últimos anos o bloco vem perdendo sua identidade do passado; mas Fune wo Amu se mostra como um resquício dessa antiga identidade. Assim, a história retrata o cotidiano do pouco comunicativo Mitsuya Majime, quando é contratado para a produção de um novo dicionário, chamado de A Grande Passagem. A partir daí, Majime passa a se envolver com diversas pessoas durante a elaboração d’A Grande Passagem.

O interessante de Fune wo Amu, é em como seus temas e sua mensagem ganham força conforme seus personagens crescem. Especialmente quando a principal dinâmica da série é retratada: o tímido Majime e o comunicativo Masashi Nishioka. Apesar de nessa descrição eles parecerem meros arquétipos, não se engane: são personagens naturais, verossímeis e nuançados. E é a partir dessas nuances inicias que um vai aprendendo com o outro, resolvendo gradualmente seus conflitos e, no fim, crescendo como pessoas. O que faz essa dinâmica se tornar mais intensa é justamente o trabalho n’A Grande Passagem, ou seja, a própria linguagem. Não somente essa dinâmica reforça a importância da linguagem, como também a relação de Majime com outros personagens (especialmente a Kaguya Hayashi) e o seu próprio crescimento profissional. Após seu final certeiramente agridoce, penso que esse seja o principal ponto de Fune wo Amu: a linguagem (no caso, metaforizada pelo dicionário) é o que nos conecta, o que nos faz conhecermos um ao outro melhor e, no final das contas, o que nos mantêm unidos, seja como sociedade ou apenas um pequeno grupo de indivíduos.

Um aspecto que certamente se destaca na série é o seu audiovisual, especialmente a animação, mesmo que a direção de Toshimasa Kuroyanagi e a trilha sonora tenham seu destaque. O character acting é o que dá vida aos seus personagens: cada gesto, cada expressão e cada reação têm tamanha cuidado que eles por si só já fazem um bom trabalho na caracterização dos personagens, especialmente quando o personagem é mais energético como o Nishioka. É a animação que nos mostra essas nuances, sem necessidade que a série desvie muito para partir a uma exposição sobre aquelas pessoas. Certamente uma das surpresas do ano nesse sentido, já que eu, particularmente, não esperava muito do audiovisual de um anime produzido pelo estúdio ZEXCS.

Por fim, Fune wo Amu me lembrou um pouco do excelente Shirobako, anime do ano do Tanaka Awards de 2015. Isso por retratar o árduo trabalho daqueles que trabalham na produção de dicionários (que, em alguns momentos, até parece ser mais cansativo do que trabalhar em uma série animada para a TV japonesa), mas por também ressaltar o amor por tal profissão e a união que o produto de tudo isso (o entretenimento e a linguagem) causa.