Há alguns dias atrás, estive em uma live discutindo qual seria a melhor saga para concluir Dragon Ball Z. E em meio a vários argumentos, acabei me lembrando deste texto que estava para escrever há anos. De início, achei que não precisaria mais escrevê-lo, visto que eu dissera tudo o que queria em vídeo. Mas a verdade é que, além do texto me permitir construir uma linha lógica de forma mais bem estruturada e detalhada, EU SOU MUITO BURRO!

Eu esqueci de consultar o documento deste texto para me lembrar de tudo o que tinha para falar e acabei deixando de lado alguns pontos muito relevantes. Então aqui estou eu, para sumarizar o que falei na live e completar alguns pontos.

Para começar, preciso estabelecer algumas coisas: pelo título, você já sabe que defenderei a Saga Freeza como a melhor para ser a última do mangá de Akira Toriyama. E com isso dito, partirei do princípio de que não existe final perfeito para Dragon Ball Z. Cada fim tem alguma ponta solta crassa.

A Saga Freeza abre espaço para desenvolver o Gohan, mas fecha bem o arco do Vegeta e do Goku. A Saga Cell fecha o arco do Gohan, mas abre espaço para um novo conflito do Vegeta. A Saga Boo fecha outros dois arcos do Vegeta, um dele como pai e outro como “2º guerreiro” (esse segundo parecido ao fechado na saga do Freeza), mas regride com o desenvolvimento do Gohan, que volta atrás com seu desenvolvimento como guerreiro, não se conclui nessa saga e ainda repete o erro de ser arrogante contra o oponente, atitude que anteriormente matou seu pai. Assim sendo, me focarei mais nos pontos positivos do que nos negativos da saga defendida.

Sem mais delongas…

Por que Dragon Ball Z deveria ter acabado na Saga Freeza?

Talvez a razão mais relevante seja que essa saga é a última a manter um storytelling focado e condizente com os 17 volumes que correspondem, no anime, ao “Dragon Ball Clássico”. Aqui a história ainda é do Goku, finalizando sua jornada com seu grande momento de glória, sua apoteose como artista marcial. Ainda que outros personagens tenham seus desenvolvimentos, além de menores, todos eles conversam com o arco de personagem do Goku. Piccolo está encontrando seu planeta natal, Vegeta representa para Kakaroto o orgulho de ser um guerreiro Saiyajin e Gohan e Kuririn resgatam o espírito de aventura da série, o elevando a um outro patamar.

Somada a isso, a sucessão de escaladas de poder durante toda a saga, principalmente a partir do Recoome, constrói bem a luta contra o grande vilão final, o imperador do universo. A estrutura desenha com perfeição uma curva de ação ascendente, e o Power Creep coloca os dois seres mais poderosos da existência para batalharem, convencendo o espectador de que aquela é a maior luta entre as lutas.

Isso é tão verídico que as sagas seguintes imitam descaradamente o recurso de escalada de poder ao introduzir outros vilões que são “o ser mais poderoso do universo”, com suas várias transformações, com níveis superiores do – antes lendário – Super Saiyajin e mais lutas para salvar todo o cosmos. Além dessa repetição de conflito já não ter mais impacto, pois se todas as lutas são a maior luta do universo, logo, nenhuma é, depois do Freeza não existe mais um parâmetro de poder palpável para convencer o espectador de que a escala da ameaça aumenta. O imperador do mau destruiu um planeta, então não existe coisa maior para destruir. Destruir dois planetas, um sistema solar, uma galáxia? Se fizessem isso (e não fizeram, provavelmente por bom senso), nós nem ao menos teríamos a capacidade cognitiva de entender qual a dimensão disso e muito menos sentiríamos a urgência da situação, já que não dá de lutar em cima de uma galáxia*.

E a inconcebilidade do nível de poder vai além da falta de referência no ambiente. Na Saga Freeza, o espectador ainda tem alguns parâmetros para se situar: o Scouter, a hierarquia do exército, e os guerreiros Z que, mesmo mais fracos, ainda conseguem causar algum efeito visível nos adversários. Depois disso, todos os aumentos de força são abstratos e em cada um deles, o lutador mais forte se torna de o intocável para o mais fraco. Só com o Freeza chegando na Terra, o Trunks derrotando ele e King Cold sem esforço, o Goku chegando e lidando com o Trunks com um dedo e os 3 anos anos de treinamento que o espectador não acompanha, são três power creeps gigantescos, maiores do que qualquer outro até então e completamente inconcebíveis e sem referência. Todos acontecendo em sequência.

Acima disso, mas ainda relacionado, a Saga do Freeza é a última motivada pelas Dragon Balls, sendo essas desde a razão para os Saiyajins irem à Terra até a motivação por trás do exército de Freeza e os Guerreiros Z irem a Namekusei. As sagas subsequentes simplesmente fazem o contrário: em vez de partir do elemento que dá nome à série e chegar em lutas grandiosas, elas partem da ameaça que é maior, mais forte e mais ameaçadora que a ameaça anterior e usam as esferas do dragão simplesmente como recurso narrativo para consertar toda a cagada. Com isso, as sagas acabam soando vazias em conteúdo e com uma motivação artificial, sobrando somente os arcos de personagem dos heróis, que aparecem com pouca frequência ou foco para sustentá-las.

O que nos leva a um outro problema sério sobre o elemento que dá nome a essa história: a Saga Freeza é a última a respeitar o peso da morte de personagens e os limites das esferas. Porque por mais que os guerreiros Z tenham ressuscitado dois personagens pela segunda vez, eles tiveram que cruzar o cosmos, lutar contra o imperador do universo e passar pela destruição de um planeta inteiro para tal. Depois do Freeza, com dois conjuntos novos e mais poderosos de esfera e com o Goku podendo se teleportar, a dificuldade de usar os desejos desaparece, levando junto consigo toda a tensão da série.

E, por fim, mas não menos importante, a viagem a Namekusei é a última história que mantém o espírito aventuresco de Dragon Ball, com a busca por objetos místicos, criaturas alienígenas e um planeta totalmente novo. Concluindo Dragon Ball aqui, no Freeza, até a mudança de atmosfera para algo mais sério funciona melhor, já que a saga seria assim justamente por ser o grande final apoteótico do maior mangá shonen de todos os tempos.

Mas como eu disse antes, não há final perfeito para Dragon Ball, porque sempre tem algum arco importante de personagem deixado solto. Então, na próxima semana, postarei o meu final ideal para a história mais famosa de Akira Toriyama!

*Observação do asterisco: eu sei que existe Tengen Toppa Gurren Lagann, que vai contra tudo o que eu disse naquela frase. Mas Gurren Lagann sempre quis ser ridículo. O importante ali não é o tamanho da destruição, é o volume do grito.