Em animes voltados ao público fujoshi, especialmente os que flertam com o yaoi, há um trope que reina entre todos: o queerbaiting. O ‘clichê’, em resumo, consiste em criar tensão sexual entre personagens do mesmo sexo, mas sem nunca concretizar nenhuma relação carnal entre eles.

Não sou bem um especialista em narrativas desse nicho, mas já assisti a algumas. Em Free!, por exemplo, me lembro bem de uma cena -que leva a toda uma situação que se estende por vários episódios- entre Rin e Sousuke onde Sousuke lembra de um desejo que tinha direito a fazer para Rin. Na ocasião, eles ficam estagnados em uma dúvida do que poderia ser, o personagem que tinha direito ao pedido fica dando indícios de que vai escolher coisas supérfluas, volta atrás e, no fim, isso fica sem resolução e se mantém nas semanas seguintes de exibição do anime. Uma cena que descrita não parece tanto uma isca assim, mas que no contexto de Free!, onde os personagens estão constantemente forçando um ao outro contra a parede, flertando com os olhos, soltando frases de duplo sentido e coisa do tipo, vira uma cena que serve quase que unicamente para queerbaiting.

E por mais que Free! ainda arranje alguma justificativa para criar essa proximidade física e uma tensão -que é sexual aos olhos do público- no relacionamento dos personagens, o approach da série para essas situações é sempre exacerbado, unicamente para gerar alvoroço entre o público que vai assistir para poder “shippar”. Não é como se fosse um anime ruim ou até inconsciente desse problema, mas ainda assim cai nele. Mas como nenhum trope é ruim só por existir, sempre haverá ao menos um bom exemplo de seu uso. Nesse caso, o bom exemplo é Yuri! on ICE.

Não preciso me estender muito sobre a existência desse clichê na última série da Sayo Yamamoto, não é? Porque o conflito todo gira em torno de um romance não concretizado entre Yuri e Viktor. Um aparecendo nu para o outro, os dois se “casando”, se “beijando”, etc.

O que chama atenção, aqui, é que não é um queerbaiting com duplos sentidos, como é em Free!, por exemplo. O flerte entre os personagens (não só entre os protagonistas) é forte, constante e declarado. Quase deixa de ser só uma “isca” para o público e se torna concretizado. E é justamente essa questão, de ameaçar concretizar a relação homossexual mas nunca fazê-lo, que ao mesmo tempo incomoda parte do público e faz outra ir à loucura.

Mas, no caso de Yuri! on ICE, é justamente a incerteza que mantém os personagens em chamas. Pense bem: tudo começa quando Viktor se sente desanimado com a dança, após constantes vitórias e quando Yuri quase desiste de patinar, graças às constantes derrotas. E todo os personagens mostram, ao longo da série, como o Yuri surge no cenário competitivo como uma nova chama, uma nova inspiração. Além disso, todos também têm suas próprias derrotas e incertezas.

O Chris se sente desmotivado pela perda de Viktor no cenário competitivo, o Yurio perde para o Yuri ainda no início da série, um competidor perde a namorada, outro sente seu relacionamento com a irmã ameaçado, e por aí vai.

Com isso, a incerteza, o desejo, a vontade de mergulhar de cabeça sem medo de cair é o que leva os competidores adiante para evoluir. A chama da inspiração se renova neles com algum novo patamar a alcançar -às vezes o que os derrotou em primeiro lugar-, levando aquela arte a crescer e a ressoar nos seus participantes e no seu público (inclusive na diretora da série, que é apaixonada pelo esporte).

Tudo isso é o que representa o amor eros entre Viktor e Yuri, incerto, sempre crescente e, principalmente, provocante. Um sentimento sem oportunidade para se acomodar, que tem como dever levar os amantes a buscar inspirar um ao outro, sempre, para que não se acabe.

No caso dos dois Yuris, ambos perdem forçadamente suas formas de amar e são obrigados a buscar a inversa. Para o nosso protagonista, o Yuri japonês, isso acaba justificando ainda mais o queerbaiting, já que Viktor assume o papel de ensinar a ele o que é o amor carnal (para Yurio, mais uma vez, o oposto: Viktor inspira na distância). E enquanto nenhuma certeza é estabelecida nesse amor, a provocação leva o sentimento a ressoar ainda mais no patinador do Japão. E é tudo o que essa relação entre os dois precisa: ressoar. Inspirar.

Mas, bem, como eu posso sustentar melhor essa interpretação? A resposta está no título.

Algumas histórias que buscam comentar a fundo sobre algo, têm algum personagem de “contra-exemplo”. Como o figurante do anime de Ping-Pong, por exemplo. E, em Yuri! on ICE, esse papel é dado ao J.J.

O personagem é tudo o que os outros não são. Tem um relacionamento estável, é um campeão nato, narcisista e muito seguro de si e de sua performance. Age como um pop-star, se denomina “King J.J.”.

Dado o tema da série, é claro que a confiança dele é o que o esmaga. A certeza da vitória o faz inexperiente para lidar com o medo da derrota. Na posição confortável que mantinha, com a segurança de ser campeão, foi deixado para trás. Enquanto os outros, derrotados, traçaram patamares mais altos com a esperança de buscar a vitória de quem os venceu, J.J. se deixou levar pela ilusão da invencibilidade.

Mas, mencionando Zaratustra, aqueles que se deixam derrotar serão o arauto do Além-Homem. Assim como Yuri e Yurio se perderam no início para poder ascender, a derrota de J.J. abre espaço para um novo artista renascer, começando a aprender a perder. Assim, a competição continua. Para sempre, com um novo almejo, uma nova inspiração, um novo sentimento e uma nova insegurança.